– Ah, David! Posso ver agora? Estou morrendo de curiosidade — dizia Mayra, ansiosa e abrindo seu lindo sorriso.
David cobria seus olhos com as mãos e deliciava-se com o delicioso perfume que exalava dos longos cabelos louros, ligeiramente ondulados, da namorada. A lua cheia clareava a noite, e uma suave brisa de verão soprava agradavelmente. David queria fazer uma surpresa a Mayra. Sem tirar as mãos de seus olhos, conduzia-a para o local pretendido. Andaram mais uns poucos metros e, finalmente, ele liberou sua visão. Mayra estava completamente fascinada com o que via à sua frente. A uns vinte metros, podia-se avistar o moinho de vento, tipicamente dinamarquês, banhado pela luz do luar, sob o céu estrelado. Ao redor, centenas de vaga-lumes pulsavam luzes verde-claras, volitando em diferentes direções. Era uma visão deslumbrante, quase mágica. Mayra, emocionada, abriu seu sorriso branco, diáfano como a luz do luar.
— É lindo, David! Como encontrou esse lugar? — perguntou, com as mãos no peito, como a conter sua emoção.
— Por puro acaso. Uma vez, passeava de carro com meu pai e meu avô. Eles me levavam para conhecer as plantações de uvas no vale. No caminho, meu pai parou neste lugar. E eu me encantei com ele.
— O moinho parece estar abandonado... — dizia Mayra, reparando nas paredes desbotadas e em algumas vidraças quebradas.
— Sim, está mesmo. Meu sonho era comprá-lo. Mas, você sabe, não tenho dinheiro para tanto, neste momento.
— O quê? Você quer comprar o moinho?
— Sim, era o sonho de meu pai. Ele queria comprá-lo quando planejávamos nos mudar para cá. Só que, infelizmente, aconteceu toda aquela tragédia, que você já sabe, e o sonho se foi com ele. Mas eu vou fazer de tudo para realizar esse desejo de meu pai. Acha a idéia ruim?
— Não, David. Eu acho isso tão... tão... lindo e comovente. Quanto mais lhe conheço, mais descubro em você coisas que me encantam. Você é o homem mais sensível e romântico que já conheci em toda a minha vida. E esta é uma noite perfeita, David. Jamais vou esquecê-la.
— Mas você ainda não viu o resto. Venha comigo! — disse David sorrindo. Ainda tinha mais uma surpresa. Pegou a mão de Mayra e seguiram em direção ao moinho.
— David, vai deixar o carro do Mike aí? E se alguém roubar?
— Não se preocupe, Mayra. Há anos que quase ninguém passa por aqui.
— Como sabe?
— Porque sei.
Chegando à porta do moinho, David tirou uma antiga chave do bolso e enfiou-a no cadeado da porta, que se abriu com facilidade.
— Como arranjou essa chave?
— Através de um conhecido meu, que é o dono deste lugar, e está querendo vendê-lo.
— Ah... Por isso você falou em comprá-lo.
— Sim, por isso mesmo. Mas por enquanto não dá.
— Ele não se incomoda de entrarmos aqui?
Assim que a porta se abriu, Mayra se deparou com os aposentos em completa escuridão. Não enxergava nada além das janelas.
— Fique aqui e espere — disse David, adentrado a escuridão do recinto.
— Não, David! Não quero ficar sozinha. Tenho medo do escuro! — suplicou.
Mas David já tinha mergulhado no breu. Ela podia ouvi-lo por perto, como se estivesse manipulando alguns objetos. E logo a escuridão se transformou numa agradável penumbra. David acendera um lampião a gás, para clarear o lugar. Surpresa, Mayra viu quando ele se ajoelhou perto da antiga máquina de moer e colocou o lampião aceso sobre o chão, que estava forrado com uma grande toalha de xadrez. Sobre ela havia uma cesta com arranjos florais, um balde de gelo com uma garrafa de vinho, duas taças de cristal e uma cesta com croissants, biscoitos, pães recheados com lingüiça e queijos envelhecidos. Os olhos de Mayra brilhavam, seu coração palpitava.
— Oh, David! — exclamou, tomada pela emoção. Quase não conseguia falar.
A noite era de total encantamento para ela. David sentou-se no chão, perto do balde de gelo e acenou, chamando-a para dentro. Ela entrou, meio incrédula, olhando para cada canto daquele lugar. Logo vislumbrou a escada que levava ao aposento do andar superior. David sorria de vê-la tão fascinada. Passara duas semanas planejando este momento tão especial. Queria agradá-la, surpreendê-la. E, ao que tudo indicava, seus planos tinham dado certo. Mayra sentou-se sobre a toalha de xadrez, ao lado do David, e olhou fundo em seus olhos, que brilhavam pelo efeito da luz do lampião e por tudo o que sentia. Ele sorria. O clima era do mais profundo romantismo. David pegou uma rosa vermelha da cesta de arranjos florais e prendeu-a por trás da orelha de Mayra, tornando-a ainda mais linda. Tocou delicadamente seu rosto, trazendo-o até o dele, e beijou-a por longos e intermináveis minutos de pura paixão.
Ali permaneceram por um bom tempo, trocando juras de amor, enquanto desfrutavam do rústico banquete. Em seguida, subiram para o andar de cima do moinho. Ficaram ali juntinhos. Dedos entrelaçados, corpos colados, aconchegados no saco de dormir. Pareciam unidos em uma única alma. O lampião, ao lado, iluminava-os. Pelas três pequenas janelas, contemplavam as estrelas reluzentes no céu límpido. Tinham os rostos suados. A noite era quente, sublime e romântica. Uma noite para jamais ser esquecida. Quando não olhavam as estrelas, fitavam, em silêncio, o teto com toras de madeira a sustentar o telhado. Ouviam a sonoridade de suas respirações ofegantes e trocavam olhares apaixonados. As mãos úmidas de suor não se soltavam. David sorria para ela, que acariciava seu rosto, a admirar seus olhos meigos e traços suaves. Mayra suspirou, tomada por um profundo sentimento de fascinação e amor.
— Foi uma noite maravilhosa, David. Jamais vou me esquecer deste momento — disse ela, quebrando o silêncio — Eu te amei como nunca.
— Eu também, Mayra. Você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Nunca vou deixar você. Nunca, nunca...
David fitava-a tomado de encantamento. O coração batia acelerado dentro de seu peito nu. Com o corpo colado ao dela, tinha a sensação de estarem unidos pelo mesmo suor. Mais uma vez, beijou carinhosamente o rosto de Mayra e confidenciou baixinho em seu ouvido:
— Tenho um sonho que espero realizar em breve, sabia?
— Um sonho? E qual é? — perguntou Mayra.
— Viver com você para sempre. Sempre, sempre...
— É este o seu sonho? — Mayra se emocionara com a resposta.
— Sim! Meu sonho é você! E o seu? Qual é o seu sonho?
Mayra sorriu e deitou a cabeça em seu ombro. Olhava para o teto. David acariciava seus fartos cabelos louros.
— Também tenho um sonho que espero concretizar um dia. Mas não quero falar sobre isso. Tenho medo.
— Medo? Medo de quê?
— Tenho medo de falar e dar azar. Se contar, posso afugentar o sonho.
— Querida, meu amor por você é maior do que tudo. E nada pode afugentar o que sinto por você.
— Jura? Você me ama de verdade?
— Sim, eu juro pelo que há de mais sagrado. Eu te amo tanto, que esse amor não cabe nas palavras. Amo muito. Meu amor por você é maior que o universo, maior do que tudo. Ah, Mayra... Como eu te amo!
— Eu também, David. Eu te amo muito.
Beijaram-se apaixonadamente por longos segundos.
— Mas agora... — disse David, colando sua fronte à dela — Agora, me conte sobre o seu sonho.
— Bem... Meu maior sonho é ter um filho, sentir esse filho crescer em meu útero, em meu ventre... — dizia, acariciando a própria barriga — Um filho seu. Vida da nossa vida. O início de uma família — confessou, ainda com um certo temor, mas ao mesmo tempo feliz, por poder compartilhar com ele o seu maior sonho.
Olhou timidamente para David e percebeu, aliviada, que não o assustara com aquela confissão. Ao contrário, viu que seus olhos irradiavam alegria.
— Seu sonho é bem melhor que o meu. Com certeza, muito em breve este sonho irá transformar numa linda realidade — disse, pousando a mão sobre a dela, que continuava a acariciar o ventre.
— Não acha que o meu sonho de ser mãe é um tanto precipitado?
— Não, Mayra. Eu não acho. Afinal, somos adultos, responsáveis e nos amamos.
David sorria feliz, queria que o tempo parasse ali. Não parava de beijar Mayra. Naquele exato momento e lugar, decidiu comprar um anel de diamante para ela e pedi-la

Nenhum comentário:
Postar um comentário