quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 2 - Uma noite de amor e de estrelas

– Ah, David! Posso ver agora? Estou morrendo de curiosidade — dizia Mayra, ansiosa e abrindo seu lindo sorriso.

David cobria seus olhos com as mãos e deliciava-se com o delicioso perfume que exalava dos longos cabelos louros, ligeiramente ondulados, da namorada. A lua cheia clareava a noite, e uma suave brisa de verão soprava agradavelmente. David queria fazer uma surpresa a Mayra. Sem tirar as mãos de seus olhos, conduzia-a para o local pretendido. Andaram mais uns poucos metros e, finalmente, ele liberou sua visão. Mayra estava completamente fascinada com o que via à sua frente. A uns vinte metros, podia-se avistar o moinho de vento, tipicamente dinamarquês, banhado pela luz do luar, sob o céu estrelado. Ao redor, centenas de vaga-lumes pulsavam luzes verde-claras, volitando em diferentes direções. Era uma visão deslumbrante, quase mágica. Mayra, emocionada, abriu seu sorriso branco, diáfano como a luz do luar.

É lindo, David! Como encontrou esse lugar? — perguntou, com as mãos no peito, como a conter sua emoção.

Por puro acaso. Uma vez, passeava de carro com meu pai e meu avô. Eles me levavam para conhecer as plantações de uvas no vale. No caminho, meu pai parou neste lugar. E eu me encantei com ele.

O moinho parece estar abandonado... — dizia Mayra, reparando nas paredes desbotadas e em algumas vidraças quebradas.

Sim, está mesmo. Meu sonho era comprá-lo. Mas, você sabe, não tenho dinheiro para tanto, neste momento.

O quê? Você quer comprar o moinho?

Sim, era o sonho de meu pai. Ele queria comprá-lo quando planejávamos nos mudar para cá. Só que, infelizmente, aconteceu toda aquela tragédia, que você já sabe, e o sonho se foi com ele. Mas eu vou fazer de tudo para realizar esse desejo de meu pai. Acha a idéia ruim?

Não, David. Eu acho isso tão... tão... lindo e comovente. Quanto mais lhe conheço, mais descubro em você coisas que me encantam. Você é o homem mais sensível e romântico que já conheci em toda a minha vida. E esta é uma noite perfeita, David. Jamais vou esquecê-la.

Mas você ainda não viu o resto. Venha comigo! — disse David sorrindo. Ainda tinha mais uma surpresa. Pegou a mão de Mayra e seguiram em direção ao moinho.

David, vai deixar o carro do Mike aí? E se alguém roubar?

Não se preocupe, Mayra. Há anos que quase ninguém passa por aqui.

Como sabe?

Porque sei.

Chegando à porta do moinho, David tirou uma antiga chave do bolso e enfiou-a no cadeado da porta, que se abriu com facilidade.

Como arranjou essa chave?

Através de um conhecido meu, que é o dono deste lugar, e está querendo vendê-lo.

Ah... Por isso você falou em comprá-lo.

Sim, por isso mesmo. Mas por enquanto não dá.

Ele não se incomoda de entrarmos aqui?

Assim que a porta se abriu, Mayra se deparou com os aposentos em completa escuridão. Não enxergava nada além das janelas.

Fique aqui e espere — disse David, adentrado a escuridão do recinto.

Não, David! Não quero ficar sozinha. Tenho medo do escuro! — suplicou.

Mas David já tinha mergulhado no breu. Ela podia ouvi-lo por perto, como se estivesse manipulando alguns objetos. E logo a escuridão se transformou numa agradável penumbra. David acendera um lampião a gás, para clarear o lugar. Surpresa, Mayra viu quando ele se ajoelhou perto da antiga máquina de moer e colocou o lampião aceso sobre o chão, que estava forrado com uma grande toalha de xadrez. Sobre ela havia uma cesta com arranjos florais, um balde de gelo com uma garrafa de vinho, duas taças de cristal e uma cesta com croissants, biscoitos, pães recheados com lingüiça e queijos envelhecidos. Os olhos de Mayra brilhavam, seu coração palpitava.

Oh, David! — exclamou, tomada pela emoção. Quase não conseguia falar.

A noite era de total encantamento para ela. David sentou-se no chão, perto do balde de gelo e acenou, chamando-a para dentro. Ela entrou, meio incrédula, olhando para cada canto daquele lugar. Logo vislumbrou a escada que levava ao aposento do andar superior. David sorria de vê-la tão fascinada. Passara duas semanas planejando este momento tão especial. Queria agradá-la, surpreendê-la. E, ao que tudo indicava, seus planos tinham dado certo. Mayra sentou-se sobre a toalha de xadrez, ao lado do David, e olhou fundo em seus olhos, que brilhavam pelo efeito da luz do lampião e por tudo o que sentia. Ele sorria. O clima era do mais profundo romantismo. David pegou uma rosa vermelha da cesta de arranjos florais e prendeu-a por trás da orelha de Mayra, tornando-a ainda mais linda. Tocou delicadamente seu rosto, trazendo-o até o dele, e beijou-a por longos e intermináveis minutos de pura paixão.

Ali permaneceram por um bom tempo, trocando juras de amor, enquanto desfrutavam do rústico banquete. Em seguida, subiram para o andar de cima do moinho. Ficaram ali juntinhos. Dedos entrelaçados, corpos colados, aconchegados no saco de dormir. Pareciam unidos em uma única alma. O lampião, ao lado, iluminava-os. Pelas três pequenas janelas, contemplavam as estrelas reluzentes no céu límpido. Tinham os rostos suados. A noite era quente, sublime e romântica. Uma noite para jamais ser esquecida. Quando não olhavam as estrelas, fitavam, em silêncio, o teto com toras de madeira a sustentar o telhado. Ouviam a sonoridade de suas respirações ofegantes e trocavam olhares apaixonados. As mãos úmidas de suor não se soltavam. David sorria para ela, que acariciava seu rosto, a admirar seus olhos meigos e traços suaves. Mayra suspirou, tomada por um profundo sentimento de fascinação e amor.

Foi uma noite maravilhosa, David. Jamais vou me esquecer deste momento — disse ela, quebrando o silêncio — Eu te amei como nunca.

Eu também, Mayra. Você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Nunca vou deixar você. Nunca, nunca...

David fitava-a tomado de encantamento. O coração batia acelerado dentro de seu peito nu. Com o corpo colado ao dela, tinha a sensação de estarem unidos pelo mesmo suor. Mais uma vez, beijou carinhosamente o rosto de Mayra e confidenciou baixinho em seu ouvido:

Tenho um sonho que espero realizar em breve, sabia?

Um sonho? E qual é? — perguntou Mayra.

Viver com você para sempre. Sempre, sempre...

É este o seu sonho? — Mayra se emocionara com a resposta.

Sim! Meu sonho é você! E o seu? Qual é o seu sonho?

Mayra sorriu e deitou a cabeça em seu ombro. Olhava para o teto. David acariciava seus fartos cabelos louros.

Também tenho um sonho que espero concretizar um dia. Mas não quero falar sobre isso. Tenho medo.

Medo? Medo de quê?

Tenho medo de falar e dar azar. Se contar, posso afugentar o sonho.

Querida, meu amor por você é maior do que tudo. E nada pode afugentar o que sinto por você.

Jura? Você me ama de verdade?

Sim, eu juro pelo que há de mais sagrado. Eu te amo tanto, que esse amor não cabe nas palavras. Amo muito. Meu amor por você é maior que o universo, maior do que tudo. Ah, Mayra... Como eu te amo!

Eu também, David. Eu te amo muito.

Beijaram-se apaixonadamente por longos segundos.

Mas agora... — disse David, colando sua fronte à dela — Agora, me conte sobre o seu sonho.

Bem... Meu maior sonho é ter um filho, sentir esse filho crescer em meu útero, em meu ventre... — dizia, acariciando a própria barriga — Um filho seu. Vida da nossa vida. O início de uma família — confessou, ainda com um certo temor, mas ao mesmo tempo feliz, por poder compartilhar com ele o seu maior sonho.

Olhou timidamente para David e percebeu, aliviada, que não o assustara com aquela confissão. Ao contrário, viu que seus olhos irradiavam alegria.

Seu sonho é bem melhor que o meu. Com certeza, muito em breve este sonho irá transformar numa linda realidade — disse, pousando a mão sobre a dela, que continuava a acariciar o ventre.

Não acha que o meu sonho de ser mãe é um tanto precipitado?

Não, Mayra. Eu não acho. Afinal, somos adultos, responsáveis e nos amamos.

David sorria feliz, queria que o tempo parasse ali. Não parava de beijar Mayra. Naquele exato momento e lugar, decidiu comprar um anel de diamante para ela e pedi-la em noivado. Não tinha mais dúvidas de que havia encontrado a sua cara-metade. Mayra era a mulher de sua vida. E aquela foi uma noite feita de amor e de estrelas.

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