sábado, 28 de novembro de 2009

CAPITULO 1 - Coração que não cicatriza, um brinquedo esquecido

Do quintal da casa de sua avó, com uma vassoura na mão, David Forlin observava os pássaros a emigrarem para o sul em busca de calor e sol, voando alto no céu nublado e cinzento. Desejou poder ver o sol a céu aberto ali, irradiando seu esplendor luminoso. Fazia já duas semanas que o astro-rei não ousava aparecer. Nem mesmo as nuvens estavam generosas naquela manhã, recusavam-se a mostrar qualquer pedacinho de azul do céu. Fazia frio, o inverno estava a caminho. David usava uma velha jaqueta de cor de cinza desbotado e um gorro de lã preto, que escondia seu cabelo castanho-dourado e cobria-lhe as orelhas, protegendo-as da friagem. Precisava mantê-las sempre aquecidas. Seus ouvidos eram muito sensíveis, e o frio os maltratava. Não gostava muito daquele clima gelado, foi acostumado ao calor tropical. Era carioca, e a idéia de voltar ao Brasil e alugar um apartamento, onde pudesse ter sua própria vida, tomava conta de sua cabeça. Mas, naquele momento, não podia abandonar a avó, deixando-a confinada à solidão no final de sua vida. Aprendera a amá-la como amava seus próprios pais, e era-lhe muito grato para pensar somente em si. Afinal, ela o acolhera com todo amor, quando ficara órfão aos 14 anos.
Logo depois do acidente automobilístico, que lhe tirou os pais precocemente e mudou toda a sua vida, David mostrava-se insatisfeito por ter de ir morar com a avó. Achava que não se adaptaria à nova vida, que iria se sentir completamente deslocado morando no exterior, ao lado de uma avó com quem pouco convivera até então. Porém, passados alguns meses desde que fora morar naquela pequena cidade, com menos de 200 mil habitantes, começou a se acostumar e até a gostar do local. Solvang ficava no Vale Santa Ynez, e seu estilo de vida parecia remeter os moradores a um nostálgico passado. Bicicletas eram vistas com freqüência pelas ruas como meio de transporte. E o pequeno comércio costumava fechar no final da tarde, por volta das seis horas. A cidade, apesar de pacata, tinha lá seus encantos e um simpático estilo dinamarquês, além os moinhos de vento, localizados no centro, que eram um verdadeiro cartão postal e atraíam muitos turistas. O nome da cidade, Solvang, significava “campo ensolarado”, em dinamarquês. David pensava sobre isso, naquela manhã, e sorria com certa ironia. “Uma cidade, com seu ‘campo ensolarado’, onde o sol não aparece há duas semanas!”, pensava.
Oito anos se passaram desde que David foi morar nesta pacata cidade americana. Nela cresceu e se tornou um homem. Concluiu o segundo grau numa escola local, serviu o Exército por um ano e teve vários empregos, onde permanecia por pouco tempo. Apenas no supermercado conseguiu trabalhar por um período mais longo como atendente de caixa — dois anos e meio. O salário era modesto. Sua vida era modesta. Sempre fora um sujeito modesto e nunca mudava nada em sua rotina. Para David, todos os dias eram sempre iguais e previsíveis.
Suspirou, aguardando esperançoso que o sol voltasse a brilhar. Mas nada de sol. Era como se o grande astro estivesse de luto pelo aumento de tragédias e da violência que assolava o mundo. Parecia até que Deus desligara o sol, por não encontrar razões para fazê-lo brilhar sobre a Terra, vendo que milhares de pessoas morriam brutalmente, vítimas das atrocidades de guerras, roubos e drogas; que a ausência de fé congelava a humanidade e seus corações. Naquele momento, estes eram os melancólicos pensamentos de David, que tratou logo de espantá-los para não ficar deprimido. Começou a varrer, com paciência, todas as folhas caídas, para depois depositá-las na cesta de lixo da calçada. A rua Cerrito era toda asfaltada, perfilada de árvores, cujas folhas coloridas se desprendiam dos galhos e cobriam lentamente as calçadas. Era um lugar aprazível, bem sossegado, perfumado, apesar do ar gélido. Do outro lado, notou a senhora, de baixa estatura e magrinha, sentada na varanda a lhe observar. Ela acenou educadamente, e ele retribuiu-lhe o aceno. Depois voltou ao quintal para pegar a vassoura e seguiu em direção à varanda da casa de madeira, pintada de branco, onde morava. Sobre os degraus havia uma grande cabeça de abóbora, com olhos, nariz e boca, mais conhecida como “Jack, o Lanterna”. Encostou a vassoura no canto da varanda, pegou a cabeça de abóbora e levou-a para dentro de casa. O Dia das Bruxas havia passado já há três dias.
A avó costumava passar a maior parte de seu tempo numa pequena sala, que mais parecia um ateliê, às voltas com os trabalhos artesanais. Estava ela ali agora, em sua poltrona favorita, forrada com uma manta de patchwork. Usava um vestido com estampas florais, meias grossas de lã verde, que iam até os joelhos, e uma blusa de crochê toda colorida, um pouco cafona, detalhe com o qual ela jamais se importava. Seu passatempo favorito era criar bonecos de pano. Eram bonecos que chegavam à perfeição em seu processo de feitura. Ao seu lado havia quatro deles já prontos, quase idênticos, todos do mesmo tamanho. Mediam em torno de quarenta e oito centímetros de altura, contando dos sapatinhos de feltro até o ápice do chapéu cuneiforme. Os rostos, confeccionados em tecido de cor pêssego, eram grandes e ovais; assemelhavam-se ao rosto de um menino faceiro e risonho. Por baixo da borda cilíndrica e multicolorida do chapéu havia cabelos de fios de lã. Os olhos grandes e o nariz, pequeno e empinado, conferiam a eles uma graciosidade cativante, lembrando personagens de desenho animado. Os lábios, pintados em rubro, exibiam um largo sorriso, dando a nítida impressão de estarem sorrindo de verdade. As bochechas tinham coloração rosácea. E as roupas eram também feitas de retalhos. Todos tinham um perfeito acabamento. Era uma confecção muito caprichada.
David apareceu na porta. Contemplou-a. Ela costurava o dorso do último boneco da série, depois de preenchê-lo com mais algodão, de modo a torná-lo bem encorpado e gracioso. O neto sorriu ternamente ao vê-la. Sempre que estava entretida com seus bonecos, ela perdia a noção do tempo e quase nunca percebia sua chegada. Sua concentração era tanta que o mundo ao redor parecia não existir. Era como se estivesse numa espécie de transe. Foi preciso que David pigarreasse intencionalmente para que ela voltasse à realidade.
— David! Que susto me deu! Está querendo matar a sua avó do coração, é? Por um segundo, pensei que fosse um invasor.
— Desculpe, vovó. Vim para lhe dizer que já terminei de varrer todas as folhas do jardim. Agora vou para a cozinha preparar um chocolate quente. Você quer alguma coisa?
— Não, obrigada — respondeu, com um sorriso amável, que mais luminoso ficava quando olhava, orgulhosa, para os bonecos que fazia. A idéia de dá-los às crianças enchia-lhe o coração de amor e paz. Seus pensamentos eram sempre felizes. — Espere um pouco, meu amigo! Só mais um pequeno acabamento e você estará completo.
David arqueou as sobrancelhas ao vê-la conversar com o boneco. Estranhava e se incomodava com aquela mania que sua avó tinha de conversar com bonecos, como se eles tivessem vida própria.
— Você precisa parar com isso, vovó.
— Por quê?
— Eu acho muito esquisito esse negócio de ficar conversando com bonecos feitos de trapos velhos.
— Pssiu! Não fale assim! Meus bonecos podem ficar chateados com você.
— O que é isso, vovó? — retrucou David, já quase levantando o tom de voz — Esses bonecos não passam de pedaços de panos. Ponha isso na cabeça, pelo amor de Deus!
— Pois saiba, querido, que eles podem ouvir o que você diz, podem ver o que você faz e podem sentir o que você sente — disse a velha senhora, fitando o neto com paciência e ternura.
— Isto é impossível, vovó. Você já me falou sobre essa história um monte de vezes. E eu insisto em dizer que tudo isso não passa de pura fantasia, e você deve saber muito bem. Precisa tomar cuidado para não misturar o real com o imaginário.
Ela limitou-se a dar um suspiro. Seu neto não entenderia, não naquele momento.
— Ah, David! Você deixou de ser uma criança, e isso é muito, muito triste.
— Não é minha culpa, vovó. O tempo passa e a maturidade chega. Já tenho 22 anos.
— Eu sei. Mas é uma pena, não é? Deixar de ser criança para se transformar num adulto materialista — respondeu chateada. — Por falar nisso, há muito venho querendo lhe perguntar algo, e sempre me esqueço. Que fim levou aquele boneco que lhe dei quando você ainda era menino. Você brincava tanto com ele. Que fim levou o boneco?
— Ah, o Edwin! — logo lembrou-se do boneco que ganhara dela quando criança. Brincava com ele todos os dias, até completar 12 anos, quando começou a se interessar por outras coisas. A partir de então, o tempo fez com que acabasse por esquecê-lo numa caixa, que nunca mais abriu. — Já nem me lembrava mais dele, vovó. Agora que tocou no assunto, consigo visualizá-lo perfeitamente. Ele está guardado numa caixa. Por quê?
— Você não pode deixar o Edwin guardado numa caixa, David. Se não quer mais o boneco, dê-o para outra criança — disse, ajeitando a pequena camisa de retalhos do boneco que acabara de aprontar, sem dar a perceber o quanto a resposta do neto lhe deixara sentida. — Não me agrada a idéia de saber que o boneco que lhe dei foi esquecido, deixado de lado e tratado como lixo.
— Desculpe, vovó! Desculpe-me. Prometo que vou dá-lo à primeira criança que encontrar. Mudando de assunto, a Dona Stella vai vir hoje à tarde?
— Oh, sim! Ela nunca faltaria ao seu aniversário. Vai trazer um bolo de chocolate, que ela mesma fez.
— Hummm! Esse bolo deve estar bem gostoso. Mal posso esperar. Bem, agora vou mesmo para a cozinha. Se desejar alguma coisa, é só chamar que estarei aqui num piscar de olhos — disse sorrindo.
— Obrigada, querido.
A avó acompanhou-o com os olhos até ele sair da sala e seguir pelo corredor que levava à cozinha. Quando David desapareceu de suas vistas, ela se voltou para o boneco.
— Ele não acredita. Mas sejamos pacientes... Quanto ao novo casaco que fiz para ele, meu bom amigo, já está todo pronto. Tenho certeza que ele vai gostar muito. Hoje vai ser um dia muito especial para meu neto David.
A tarde caiu, o tempo não melhorara muito. Fazia muito frio, névoas embranquecidas envolviam os vales. O vento outonal soprava forte, levando as folhas caídas para longe do quintal. Uma delas voou em direção à janela do quarto de David, que ficava no andar superior, e grudou sobre a vidraça como se fosse um imã. Parecia querer cumprimentar-lhe. Ele usava um agasalho vermelho por cima da calça desbotada. Abriu o guarda-roupa e observou sua imagem refletida no espelho da porta. Examinou seu rosto e a espinha solitária a despontar em sua testa. Espremeu-a sem dó. Depois, ajoelhou-se, puxou a última gaveta e dela retirou uma caixa de sapato. Sentou-se na cama e abriu-a. Dentro da caixa destacava-se um pequeno estojo de veludo preto sobre dezenas de fotos empilhadas. Eram fotos de família. Pegou o estojo, abriu e contemplou o anel reluzente, que nunca fora usado. Era um anel de noivado. Esboçou uma expressão indignada, resmungou qualquer coisa e fechou o pequeno estojo. Pegou uma foto, onde um casal abraçava feliz um garoto risonho de 14 anos. Era ele entre seus pais. A expressão indignada deu lugar a um sorriso, diante da singela imagem. Sentia muita saudade deles. Pegou outra foto. Agora de seu avô. Ele exibia a vara de pesca em uma das mãos e um grande peixe na outra, com o mesmo menino a seu lado. Estavam no píer de Santa Bárbara, num dia ensolarado. Sorriu mais uma vez. Também tinha saudade do avô. Estava entretido com as fotos, quando a avó lhe chamou do andar de baixo.
— David! O café está pronto. Venha, desça!
— Já estou indo, vovó! — respondeu em voz alta para que ela pudesse ouvir, já que a surdez começava a afetá-la , em virtude da idade avançada.
Olhou mais uma vez para uma das fotos e beijou-a com carinho. Guardou a caixa e desceu a escada. Encontrou a avó na cozinha, em companhia de sua antiga amiga, Dona Stella. Ambas estavam sentadas à mesa, esperando por ele. Também lhe aguardava um grande e suculento bolo de chocolate, com recheio de morango e calda de chocolate quente, acompanhado de uma jarra de suco de laranja. Sobre o bolo havia duas velas acesas, em formato de número. As duas senhoras receberam-no com um largo sorriso.
— Feliz aniversário David! — disse a avó. Tinha nas mãos um presente embrulhado em papel dourado, aparentemente volumoso. O aniversariante balançou a cabeça sorrindo.
— Ai, vovó! Não precisa colocar as velas aí. Sinto-me como uma criança tola.
— Deixe de bobagem, querido. É um dia muito especial para você. Venha, faça um pedido!
David inclinou-se sobre a mesa e, depois de pensar num pedido, soprou fortemente as velas. As chamas faiscantes apagaram-se, mas voltaram a se acender, faiscando ainda mais. Ele as soprou. Não deu. Soprou mais uma vez. E as chamas teimavam em ressurgir. Até que resolveu apertar com os dedos os fios das velas. Só então as chamas cessaram. A avó e Dona Stella batiam palmas.
— E aí, querido? Qual foi o seu pedido? — perguntou a avó, curiosa.
— Melhor não dizer, senão dá azar.
— Está certo. Seja lá qual tenha sido seu pedido, tenho certeza que vai ser realizado em breve, muito em breve — disse a boa senhora, entregando-lhe o presente.
— Não precisava ter comprado nada, vovó.
— Eu não comprei, David. Abra-o! — pediu, ansiosa para que ele visse o presente.
Dona Stella olhava curiosa para o embrulho, tentando adivinhar o que poderia ser. David abriu presente e se deparou com um grosso casaco de retalhos, que iria aquecê-lo muito bem nos dias de frio. Fora feito com pedaços de tecidos em formato quadricular, costurados um ao outro de maneira tão precisa e perfeita que os fios da costura eram imperceptíveis. Oito cores compunham o casaco: vermelho, azul, verde, roxo, amarelo, laranja, lilás e marrom. Seu interior fora preenchido com algodão, para produzir um melhor aquecimento. David ficou bastante comovido pelo delicado gesto da avó, pelo trabalho que teve.
— Vovó, não precisava ter feito isso!... Deve ter tido um trabalho enorme.
— Trabalho nenhum! Fiz porque quis, porque me deu prazer. Sua jaqueta está muito velha e feia. Precisa de um casaco novo. Vista-o para ver como fica — pediu, tirando a peça do embrulho.
Dona Stella estava impressionada com os detalhes do casaco. David atendeu ao pedido da avó e vestiu o casaco. Caiu-lhe como uma luva. Sentiu-se aconchegado e aquecido dentro dele, embora estranhasse seu estilo pouco convencional.
— Você se superou, Mary — disse Dona Stella. — É inegável sua habilidade, você se supera em cada coisa que faz. Ah, se eu tivesse esse talento...
— Não se queixe. Você tem talento para pintar quadros, Stella. Portanto, estamos quites — disse bem humorada, não admitia pessoa invejosa. Virou-se e se dirigiu ao neto — E aí? Gostou, querido?
David observava sua imagem refletida na vidraça da janela da cozinha. Parecia um personagem de história em quadrinhos, que acabara de saltar do reino da fantasia para o mundo real. Real e violento. Sentia-se estranho. Na verdade, não conseguia se imaginar usando aquele tipo de casaco, todo diferente e excessivamente colorido.
— Quero que saiba, meu querido, que este casaco vai lhe proteger, não só da friagem, mas de todos os males que possam vir a lhe prejudicar. Ao fazê-lo, coloquei nele os meus melhores sentimentos. E acredito que a força desta energia vai lhe deixar muito bem protegido.
David, tentando conter a risada por achar a idéia da avó um tanto estapafúrdia, comentou:
— Ah, vovó...! Você não pára mesmo de inventar fantasias! Por favor, não exagere, está bem? — disse, sentindo-se pouco incomodado com aquelas crenças surreais dela.
Há oito anos convivia com ela, e a adorava. Mas não conseguia aceitar muito bem aquela sua mania de viver e interagir no mundo da fantasia. Era demais.Chegava ao ponto de irritá-lo.
— Que pena... Acho que você não gostou — lamentou a avó, frustrada com a reação do neto.
— Não é isso, vovó. Eu gostei. É bacana mesmo! Muito obrigado! — mentiu. Não queria desapontá-la.
A boa senhora sorriu. Abraçou o neto e beijou-lhe a fronte com carinho. Emocionado com seu gesto, David tentava conter as lágrimas, que escapavam involuntariamente de seus olhos. Dona Stella também veio abraçá-lo.
— Feliz aniversário, David! Tenha muita saúde e felicidade!
David agradeceu as sinceras manifestações de afeto e depois tirou o casaco.
— Por que está tirando o casaco? — atalhou a avó.
— Não quero sujá-lo — mentiu mais uma vez. — Mas vou usá-lo quando sair.
A avó, naturalmente, percebeu que o neto não gostara muito do casaco. Mas, apesar da tristeza em seus olhos, esforçou-se para sorrir e fingir que não estava nem um pouco desapontada.
— Está bem, querido. Agora vamos comer. Estou com fome! — exclamou, acomodando-se na cadeira. Dona Stella pegou uma faca e cortou o bolo.
David pendurou o casaco no espaldar da cadeira e sentou-se entre as duas senhoras. Dona Stella serviu-lhe uma fatia de bolo, ele agradeceu e elogiou o sabor.
— É uma pena que sua namorada e aquele seu amigo não estejam aqui para comemorar esta data tão importante para você, e para nós também — dizia Dona Stella, tentando puxar conversa. — Não sei por que fizeram aquilo. São pessoas tão agradáveis. Vocês três sempre se deram tão bem...
David olhou para ela contrariado. A expressão em seu rosto era de irritação. Parecia profundamente atingido com aquele inoportuno comentário.
— Por que tinha que falar sobre eles agora, Dona Stella? — disse, alterando a voz, de maneira ríspida e grosseira. Não se sentia nada confortável ao lembrá-los. — Por que a senhora insiste em cutucar minha ferida?
Dona Stella olhava para ele perplexa. Nunca na vida havia recebido uma bronca daquelas. Olhou para a amiga, que lhe dirigiu uma expressão contrafeita, como se dissesse em silêncio: “Por que, em nome de Deus, foi tocar neste assunto espinhoso, sua desmiolada?” Mas era tarde demais. David explodiu, contrariado.
— Por que diabos eu ia querer que eles estivessem aqui no meu aniversário, depois de terem me traído de maneira tão sórdida? Não, Dona Stella, eles não merecem a minha consideração, de maneira alguma — bateu com o punho fechado sobre a mesa, fazendo os pratos e o bolo saltarem sobre a mesa. — Maldição!
— Por favor, me desculpe, David. Achei que vocês já tivessem superado essa história — disse Dona Stella, arrependida. Tinha vontade de chorar, mas se segurou para não complicar ainda mais a situação. Não queria fazer papel de boba na frente deles. Podia ver nos olhos de David, o quanto ele ficara magoado com aquele assunto.
— Não, não superei ainda. Já se passaram dois meses e eu ainda sinto uma enorme raiva ao lembrar. Eles me traíram. Apunhalaram-me pelas costas.
— David, David! — interpelou a avó, tentando acalmá-lo — Fique frio. Se você continuar com esse rancor, com esses pensamentos revoltosos, sua vida não vai evoluir. Evite esse tipo de sentimento. Sabe que não vale a pena agir dessa maneira.
— Até hoje não consigo acreditar! — desabafou, magoado — Não entendo por que fizeram isso comigo. Como puderam?
Ela pousou sua mão sobre a de David, abriu um sorriso e começou a fitá-lo, com os olhos cheios de ternura.
— David, meu querido, você precisa deixar o passado ir embora, pensar nas coisas boas que estão por vir. Deve seguir, com plena confiança, a trajetória de sua vida, conforme ela se apresenta. Só desta maneira, conseguirá evoluir. Não deve deixar que o passado perturbe sua vida, entendeu? Se ficar preso a ele, aos momentos desagradáveis que lhe causaram desgostos, atrairá para si sentimentos ainda mais sombrios. Não vale a pena, meu querido. Deixe o passado lá para trás, que é o lugar dele. Chame pela vida. Você merece tudo de bom, merece ser feliz. E é o que eu mais quero. Não permita que lembranças nefastas estraguem o dia de hoje. Este é um novo dia. É hora de começar a semear bons frutos para colher no futuro. Se algo não deu certo num determinado momento, sempre haverá um amanhã, onde é possível melhorar e ser feliz.
Os olhos de David umedeceram. Comovera-se com o sábio conselho da avó. Suas sublimes palavras fizeram com que se sentisse melhor.
— Vou me lembrar sempre dessas palavras. A senhora tem toda razão. Obrigado, vovó!
— Não precisa agradecer. Você é meu neto amado e eu estarei sempre disposta a ajudá-lo nas horas difíceis — levantou-se e deu um carinhoso beijo em seu rosto.
— Agora vamos esquecer tudo, de uma vez por todas — disse por fim, voltando a se sentar. — E vamos acabar de comer a torta! Está mesmo deliciosa!
David abriu um sorriso e levou, com vontade, um pedaço de torta à boca. Uma lágrima ameaçou escapar, mas conteve a emoção e voltou a sorrir. Dona Stella tratou de mudar de assunto, não queria mais correr o risco de ser inconveniente. Começou a falar de amenidades, de novelas, da vizinhança, de flores, roupas, culinária, temas que somente senhoras como ela entendem com profundidade. Alheio, David não prestava muita atenção à conversa. Tinha a mente voltada para o passado. Na verdade, ainda pensava nela. Ainda a amava.
Depois de comer dois pedaços do bolo de chocolate, David acomodou-se na sala para assistir a um filme na tevê. A avó, sentada em sua poltrona, confeccionava um chapéu em forma de cone para seu último boneco. Ao seu lado estava Dona Stella que, por sua vez, tricotava um agasalho para o filho. Os pensamentos felizes de Dona Mary foram interrompidos por ruídos de tiroteio e gritos de pavor que vinham da televisão. Era um filme forte e violento. Filme de guerra. A cena mostrava um grupo de atiradores que exterminava várias pessoas inocentes. Guerra. Carnificina. Horror. A avó de David sentia-se horrorizada com tanta violência.
— David, mude de canal. Não gosto desse filme! — ordenou a avó e, em seguida, se dirigiu a Dona Stella que, entretida em seu tricô, parecia não se incomodar com os gritos e tiros que vinham da tevê — Está vendo só? Você acha divertido ver filmes violentos?
Dona Stella, muito absorta em seus pensamentos, não a ouviu. Dona Mary então a chamou em voz alta pelo nome, e ela, por fim, levantou os olhos sobressaltada.
— O que foi? — exclamou, com uma expressão confusa — Me chamou?
— Sim! Perguntei se você acha que é bom ver esse tipo de filme? — apontou para a televisão.
Dona Stella olhou para a tela da tevê e viu a cena de dois homens se agredindo. Expressou horror e indignação.
— Que horror! Não entendo por que ainda insistem em produzir esses filmes tão violentos, se todo mundo sabe que eles influenciam negativamente a nossa sociedade! — protestou Dona Stella, e prosseguiu com seu discurso — Pior é que os adolescentes adoram imitar os personagens dos filmes. Soube de um caso em que um desses jovens roubou o carro do pai para disputar corrida com outro rapaz e acabou caindo no abismo, exatamente como aconteceu naquele filme. Aquele do ator bonito que morreu num acidente trágico num carro pequeno... Como era mesmo o nome dele?
— James Dean — respondeu David prontamente.
— Esse mesmo! Eu não entendo por que produzem esse tipo de filme!
— Para ganhar muito dinheiro, é lógico! — exclamou o rapaz, sem olhar para ela.
— Violência, dinheiro... Ah, esses produtores! Os valores de nossa sociedade estão ficando cada vez mais decadentes — disse a avó, balançando a cabeça.
Quando o filme mostrou o soldado herói enterrando um facão no corpo do inimigo, a avó ficou horrorizada e pediu mais uma vez para o neto mudar de canal.
— É só um filme, vovó! Não é de verdade...
— Eu sei que é só um filme, David! — respondeu, um tanto alterada pela sucessão de imagens fortes e violentas — Mas isso não faz bem para a sua cabeça. Pode causar pesadelos. Não gosto disso. Essa gritaria horrível me deixa nervosa. Mude o canal, por favor! — pede novamente.
— Está bem, vovó! — disse David, apertando a tecla do controle remoto e mudando de canal.
O novo canal transmitia um programa musical tipicamente country. Um cantor, aparentando origem mexicana, com chapéu de caubói, tocava seu violão e entoava uma bela e melancólica canção. A letra falava de um homem que amava muito uma mulher. Enquanto ouvia a música, David levantou-se e deu um suspiro. Aproximou-se da janela e olhou a paisagem do lado de fora. A chuva continuava. Pensava ainda na ex-namorada. Sentia saudade de ficar a seu lado, assistindo filme, comendo pipocas e namorando muito, como costumavam fazer nas tardes chuvosas. Com ar desanimado, deu um bocejo e se espreguiçou. Estava sonolento. A avó percebeu seu tédio.
— Por que não lê um bom livro, David? Daqueles com coletâneas de pensamentos ou mensagens espirituais? Faz bem para a mente e para a alma.
— Não tenho vontade de ler. Vou para o meu quarto cochilar um pouco — respondeu, se afastando da janela e tomando a direção do quarto.
— Tudo bem, querido. Tire um bom cochilo então — disse a avó.
David lhe respondeu com um aceno, sem nada dizer. Saiu da sala, subiu a escada e foi direto para o quarto. Atirou-se na cama, deitou e fechou os olhos. A imagem de Mayra não saía de seus pensamentos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário