quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 3 - Um doloroso presságio

— David, acorde! — chamava a avó, sacudindo o neto pelo braço — Você vai chegar atrasado!

Ele abriu os olhos, espreguiçou-se e deu um bocejo. Havia muito tempo que não dormia tão bem. Sentia-se revigorado. Reparou que a avó olhava para ele de um jeito diferente e que a claridade invadira o quarto. O dia amanhecera.

— Esqueceu que hoje é segunda-feira? Vai chegar atrasado ao trabalho.

— Não, não esqueci. O relógio ainda não tocou o alarme.

— Já são oito e cinqüenta e cinco.

— O quê?!! — exclamou surpreso e pulou da cama.

Olhou para o relógio e notou que ele marcava quinze horas e cinqüenta e cinco minutos. Justo naquela manhã, que não podia se atrasar para o trabalho, o relógio resolveu dar defeito. Custava a crer que havia dormido mais do que o habitual. Todas as manhãs costumava acordar às seis e meia. Mas, excepcionalmente, nessa segunda-feira, dormira demais. Quando viu que o relógio estava parado, tomou um susto. Deveria estar no trabalho dentro de cinco minutos. Na verdade, não seria a primeira vez a chegar atrasado. Mas, conhecendo bem o chefe que tinha, poderia esperar por uma bela bronca, coisa que não suportava.

— Melhor apressar-se, senão seu chefe vai lhe torturar com mil sermões — advertiu a avó e voltou para a cozinha.

— Maldição! — exclamou irritado. Os minutos passavam céleres e ele não podia ficar ali parado. Todo atrapalhado, vestiu rapidamente a calça, a camisa e a velha jaqueta. Desceu atabalhoadamente as escadas e deparou-se com a avó, que já vinha em sua direção, trazendo-lhe uma xícara de café.

— Tome o café, querido. Por que não usa o casaco que lhe dei ontem?

— Não tenho tempo, vovó. Estou com pressa — respondeu-lhe já na porta da varanda.

Ela sabia. David não havia gostado do casaco. Sentiu uma ponta de tristeza. “Tanto trabalho em vão...”

— Tudo bem. Tome pelo menos um gole, senão vai sentir fome no trabalho.

— Não se preocupe, vovó — disse, colocando o gorro, antes de sair. — Eu como alguma coisa por lá. Tchau!

— Leve a capa de chuva, querido. Vai chover mais tarde.

— Não precisa. Se chover, fico no supermercado até estiar. Cuide-se, vovó!

— Vá com Deus, meu querido.

David pegou a bicicleta, que ficava nos fundos da casa, destravou a tranca, e começou a pedalar. Antes que continuasse seu trajeto, ouviu a avó chamá-lo.

— O que é, vovó?

— Gostaria comer uma torta de frango hoje à noite? — perguntou.

— Sim, pode ser — respondeu, com um leve sorriso, e continuou a pedalar, até dobrar a esquina e sumir das vistas da avó.

Dona Mary sabia o quanto David adorava aquela torta. Conhecia-o bem, desde criança, desde quando ele só vinha em visita, uma vez por ano. Já nessa época, seu prato favorito era a torta caseira feita por ela. Quando aparecia esfomeado e sentia o cheiro da torta vindo do forno, ficava radiante. Era um verdadeiro devorador de tortas, doces ou salgadas. Qualquer uma que aparecesse à sua frente era sinônimo de tentação. E a avó fazia questão de não esquecer disso.

Muito mais acelerado que a bicicleta, o coração de David batia a mil por hora. Pedalava com toda a força para chegar ao supermercado. Em dez minutos já estava no estacionamento. Acorrentava a bicicleta num lugar seguro, quando, para seu azar, surgiu o patrão com cara de poucos amigos.

— David! Você sabe que horas são? — perguntou apontando para o seu relógio — Está atrasado! Tem alguma justificativa para este atraso?

— Desculpe, senhor — disse David, descendo da bicicleta, ofegante e suado. — Meu despertador não tocou, e só descobri que estava danificado quando acordei. Não queria chegar atrasado, mas não tive...

— Chega de conversa fiada, rapaz! — interrompeu o patrão, com rispidez — Eu já avisei várias vezes que não tolero atrasos. Poderia despedi-lo agora mesmo, não fosse por seu avô, que me salvou de boa, no passado. É só pela consideração que tenho a ele que venho aturando seus constantes atrasos. Espero que isso não repita mais.

— Eu sei, senhor. Eu sei! Prometo que não acontecerá novamente. Juro pela alma de meu avô.

— É bom, meu rapaz! Agora, vá trabalhar. Cada minuto é precioso! E, se desperdiçar as horas de trabalho, descontarei de seu salário, entendeu? Tempo é dinheiro, não se esqueça! — esbravejava o patrão, com o dedo em riste no nariz de David.

“Vai descontando, senhor, vai descontando, que eu ainda perco a paciência e lhe dou o troco!”, resmungava David, irritado, enquanto assentia com a cabeça e um sorriso amarelo. “Ah, se ele soubesse que sou campeão de caratê... Se soubesse que eu seria capaz de quebrar seus dedos, de unhas bem tratadas, se ele ousasse tocar no meu nariz...” Mas felizmente essa idéia não ultrapassou o terreno da imaginação. A voz da razão falou mais alto do que o temperamento impulsivo. Precisava muito do emprego. Se o perdesse, teria dificuldades para arranjar outro. Já era seu terceiro emprego.

O primeiro foi numa delicatessen, que comercializava carnes e especialidades escandinavas. Não ficou mais que três semanas. Pediu demissão, depois de desmaiar ao presenciar o terrível acidente ocorrido com um funcionário que manuseava a máquina de cortar carnes. O sujeito perdera três dedos. Era sangue espalhado por todos os lados. A cena lhe chocara tanto, que ele nunca mais conseguiu apagar aquele dia horrendo de sua cabeça. Após pedir demissão e se recuperar do choque, saiu em busca de outro trabalho. Viu no jornal um anúncio oferecendo vaga para ajudante de veterinário. Deu sorte e conseguiu ser admitido. O salário era baixo, mas era melhor do que nada. Pior do que o salário era o tipo de serviço que, para ele, era terrível. Tinha que lavar todos os cachorros e presenciar as torturantes operações do veterinário nos animais. Uma vez, teve de assisti-lo numa cirurgia feita na barriga de um cachorro para a retirada de um parafuso alojado no estômago do bicho, que o engolira inadvertidamente. Toda vez que David via sangue, desmaiava na hora. Era seu ponto fraco. Obviamente, não suportou essa experiência e, mais uma vez, pediu demissão. Não foi tão fácil com a terceira tentativa. Levou um mês para encontrar algo condizente com o seu perfil. Mas, graças a uma feliz idéia da avó, conseguiu uma colocação razoável. Ela lembrara que o marido, no passado, viveu uma situação com aquele que viria a ser seu patrão, no supermercado, e que este homem lhe ficara devendo um grande favor. O avô de David salvara-o de um desafortunado acidente e de uma boa confusão há muitos anos atrás. Por uma questão de gratidão, o sujeito jamais poderia se recusar a ajudar o neto daquele que um dia lhe salvara. A história era no mínimo curiosa.

Em uma tarde do verão de 1965, o avô de David caminhava pela rua, após comprar seu jornal, quando se deparou com um adolescente que escalava uma árvore alta. O rapaz deu um passo em falso e sofreu uma queda brusca. Quebrou as duas pernas. Imediatamente, o prestativo senhor correu em seu auxílio e levou-o para o hospital. Depois de tratadas as fraturas, o bom homem perguntou ao jovem o que ele fazia no alto daquela árvore. Ele respondeu, meio envergonhando, que espiava uma garota que se despia no quarto, com a janela aberta. Depois de confessar sua travessura, ficou apavorado com idéia de que aquele senhor pudesse contar tudo a seu pai, dono de um modesto mercadinho na vizinhança, que futuramente viria a ser um grande e famoso supermercado. O jovem pediu-lhe para manter em segredo tudo o que ele acabara de confessar. O avô de David, homem de coração generoso, garantiu-lhe que não contaria nada a seu pai. O adolescente ficou-lhe muito agradecido. Em retribuição, prometeu que faria qualquer coisa para ajudá-lo, caso precisasse, em alguma situação futura.

E o futuro chegou. O que a avó de David fez foi apenas aproveitar a oportunidade para que uma promessa do passado, feita a seu marido, fosse cumprida. Anos depois, resolveu encontrar esse antigo adolescente, agora já homem feito, em seu escritório, no supermercado. Acreditava que aquela seria uma boa hora para ele retribuir a cumplicidade de seu marido. Como forma de agradecimento, ele poderia conseguir um emprego decente para seu neto. E assim foi feito. Ela passou horas conversando com o homem. E, já final da tarde, ao retornar para casa, anunciou a boa notícia ao neto, cheia de felicidade.

— Querido, consegui um emprego para você! Amanhã de manhã, você começa a trabalhar no supermercado, como atendente de caixa.

A sorte parecia sorrir para David. Estava tão feliz que convidou a avó para comemorar aquele dia promissor no restaurante mais freqüentado da cidade. Ela merecia tudo de bom. Não teria ele arranjado emprego melhor sem a sua hábil intervenção.

Colocou a tranca anti-roubo na bicicleta e entrou no supermercado pela porta dos fundos, destinada somente aos funcionários. Vestiu o guarda-pó com o logotipo do supermercado e foi para o seu posto. Das doze caixas existentes, oito estavam funcionando, sendo que em cinco delas as filas eram mais longas. Alguns clientes reclamavam e demonstravam impaciência. David assumiu seu posto em uma das caixas registradoras e ligou a máquina. Os clientes que estavam por último nas outras filas vieram para a sua caixa. “Hoje vai ser um dia cheio!” — pensou. E começou a trabalhar. Calculava, com rapidez, as compras de cada um, depositava o dinheiro e os cheques recebidos no compartimento da caixa registradora, e sorria mecanicamente aos clientes, agradecendo-lhes a preferência e recomendando que voltassem sempre. Sua rotina prosseguia sem maiores surpresas naquele dia, até que, no momento em que atendia um simpático casal de velhinhos, um estampido súbito e ensurdecedor ecoou dentro do supermercado. As pessoas no recinto paralisaram com o susto. David sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Temia que o tiro tivesse sido disparado pelos mesmos assaltantes que invadiram o supermercado no mês anterior. Na ocasião, vivenciara o maior clima de terror e tensão de sua vida. Naquele instante, pensou que, como um dos assaltantes havia sido morto, o bando poderia ter voltado para se vingar. Mas felizmente não era nada tão trágico. Ao olhar para lado, David viu apenas um rapaz muito envergonhado, desculpando-se por ter derrubado uma lata de feijão. Suspirou aliviado por não estar diante de outra ameaça. Estava tudo bem. Não queria, de forma alguma, passar novamente por horas de terror com aquelas.

O tempo passava, mas não tão depressa como gostaria David, que não parava de olhar para o relógio sobre a porta de saída, esperando que seu turno terminasse logo. Queria voltar para casa. Faltavam ainda cinco horas. Virou a cabeça e notou que uma senhora lhe sorria. Retribuiu-lhe o sorriso. Do outro lado, uma mulher segurava um pacote de açúcar e ajustava os óculos sobre o nariz para conferir o preço. Mais adiante, uma criança, diante das prateleiras que armazenavam caixas de bombons e barras de chocolate, chamava pela mãe, em voz alta e com olhos gulosos, pedindo que lhe comprasse o tão desejado produto: chocolate branco. A mãe balançou a cabeça negativamente, frustrando-lhe o desejo. Foi o bastante para a criança começar a berrar, chamando a atenção de todos. O escândalo foi tanto que a mãe, já corada de vergonha diante das pessoas e muito a contragosto, pegou uma barra de chocolate branco e atirou-a com violência dentro do carrinho, com visível expressão de impaciência.

— Está contente agora, seu malcriado? — perguntou a mãe, muito irritada com o filho voluntarioso.

O menino nada respondeu. Limitou-se a sorrir de orelha a orelha. David divertia-se com aquela cena. Em seguida, bocejou e esticou os braços, espreguiçando-se. Sentia uma leve dor de cabeça. Estava com fome. Não teve tempo sequer para tomar um café por causa da longa fila de clientes. À medida que os ponteiros do relógio avançavam, aproximando-se da hora de seu almoço, a barriga roncava mais alto. Envergonhado, ele disfarçava tossindo para que as pessoas não escutassem aqueles inconvenientes ruídos. Faminto, imaginava-se dentro da Paula’s Pancake House, onde sua namorada trabalhava como garçonete, fartando-se daquelas panquecas que, só de pensar, deixavam-no com água na boca. Era um lugar aconchegante, onde as pessoas podiam se deliciar com os mais variados e saborosos tipos de panquecas. David gostava de combiná-las com sorvetes e calda de chocolate quente. O lugar fazia parte de seu dia-a-dia, freqüentava-o assiduamente até o dia fatal da briga com a namorada. Desde então, não apareceu mais por lá, por mais vontade que tivesse de devorar as irresistíveis panquecas.

A fila do supermercado ia andando e trazendo outros clientes, a quem ele atendia com educação. Quando deu meio-dia, David saiu para fazer um lanche e, após quarenta minutos de descanso, voltou ao seu posto. Meia hora depois, levantou a cabeça e avistou o chefe, vindo em sua direção, com cara muito séria. Começou a tremer, pensando que havia feito algo de errado. Mas não era por causa de erro algum. Antes fosse. O homem parou à sua frente. Não havia alteração ou rispidez no seu tom de voz ao interpelá-lo. Ao contrário, tinha os olhos marejados. Era a primeira vez que David o via daquele jeito. O chefe respirou fundo e, com a voz embargada, falou:

— David, recebi uma ligação de sua vizinha. É sobre sua avó. Aconteceu uma tragédia.

O coração do rapaz bateu aflito. Tinha maus pressentimentos.

— A vovó? Ela está bem? O que aconteceu com ela?

— Dois marginais invadiram a casa e atiraram nela.

Algumas pessoas na fila da caixa, horrorizadas ao ouvirem a conversa, reagiram com gritos de susto e palavras de indignação. David começou a chorar. Sentiu o mundo parar. O relógio, as vozes, a música de fundo no supermercado, os passos das pessoas, o ruído das caixas registradoras, tudo silenciara aos seus sentidos. O tempo pareceu sofrer uma síncope. Um silêncio profundo pairou sobre ele, como se fosse o lamento de um doloroso presságio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 2 - Uma noite de amor e de estrelas

– Ah, David! Posso ver agora? Estou morrendo de curiosidade — dizia Mayra, ansiosa e abrindo seu lindo sorriso.

David cobria seus olhos com as mãos e deliciava-se com o delicioso perfume que exalava dos longos cabelos louros, ligeiramente ondulados, da namorada. A lua cheia clareava a noite, e uma suave brisa de verão soprava agradavelmente. David queria fazer uma surpresa a Mayra. Sem tirar as mãos de seus olhos, conduzia-a para o local pretendido. Andaram mais uns poucos metros e, finalmente, ele liberou sua visão. Mayra estava completamente fascinada com o que via à sua frente. A uns vinte metros, podia-se avistar o moinho de vento, tipicamente dinamarquês, banhado pela luz do luar, sob o céu estrelado. Ao redor, centenas de vaga-lumes pulsavam luzes verde-claras, volitando em diferentes direções. Era uma visão deslumbrante, quase mágica. Mayra, emocionada, abriu seu sorriso branco, diáfano como a luz do luar.

É lindo, David! Como encontrou esse lugar? — perguntou, com as mãos no peito, como a conter sua emoção.

Por puro acaso. Uma vez, passeava de carro com meu pai e meu avô. Eles me levavam para conhecer as plantações de uvas no vale. No caminho, meu pai parou neste lugar. E eu me encantei com ele.

O moinho parece estar abandonado... — dizia Mayra, reparando nas paredes desbotadas e em algumas vidraças quebradas.

Sim, está mesmo. Meu sonho era comprá-lo. Mas, você sabe, não tenho dinheiro para tanto, neste momento.

O quê? Você quer comprar o moinho?

Sim, era o sonho de meu pai. Ele queria comprá-lo quando planejávamos nos mudar para cá. Só que, infelizmente, aconteceu toda aquela tragédia, que você já sabe, e o sonho se foi com ele. Mas eu vou fazer de tudo para realizar esse desejo de meu pai. Acha a idéia ruim?

Não, David. Eu acho isso tão... tão... lindo e comovente. Quanto mais lhe conheço, mais descubro em você coisas que me encantam. Você é o homem mais sensível e romântico que já conheci em toda a minha vida. E esta é uma noite perfeita, David. Jamais vou esquecê-la.

Mas você ainda não viu o resto. Venha comigo! — disse David sorrindo. Ainda tinha mais uma surpresa. Pegou a mão de Mayra e seguiram em direção ao moinho.

David, vai deixar o carro do Mike aí? E se alguém roubar?

Não se preocupe, Mayra. Há anos que quase ninguém passa por aqui.

Como sabe?

Porque sei.

Chegando à porta do moinho, David tirou uma antiga chave do bolso e enfiou-a no cadeado da porta, que se abriu com facilidade.

Como arranjou essa chave?

Através de um conhecido meu, que é o dono deste lugar, e está querendo vendê-lo.

Ah... Por isso você falou em comprá-lo.

Sim, por isso mesmo. Mas por enquanto não dá.

Ele não se incomoda de entrarmos aqui?

Assim que a porta se abriu, Mayra se deparou com os aposentos em completa escuridão. Não enxergava nada além das janelas.

Fique aqui e espere — disse David, adentrado a escuridão do recinto.

Não, David! Não quero ficar sozinha. Tenho medo do escuro! — suplicou.

Mas David já tinha mergulhado no breu. Ela podia ouvi-lo por perto, como se estivesse manipulando alguns objetos. E logo a escuridão se transformou numa agradável penumbra. David acendera um lampião a gás, para clarear o lugar. Surpresa, Mayra viu quando ele se ajoelhou perto da antiga máquina de moer e colocou o lampião aceso sobre o chão, que estava forrado com uma grande toalha de xadrez. Sobre ela havia uma cesta com arranjos florais, um balde de gelo com uma garrafa de vinho, duas taças de cristal e uma cesta com croissants, biscoitos, pães recheados com lingüiça e queijos envelhecidos. Os olhos de Mayra brilhavam, seu coração palpitava.

Oh, David! — exclamou, tomada pela emoção. Quase não conseguia falar.

A noite era de total encantamento para ela. David sentou-se no chão, perto do balde de gelo e acenou, chamando-a para dentro. Ela entrou, meio incrédula, olhando para cada canto daquele lugar. Logo vislumbrou a escada que levava ao aposento do andar superior. David sorria de vê-la tão fascinada. Passara duas semanas planejando este momento tão especial. Queria agradá-la, surpreendê-la. E, ao que tudo indicava, seus planos tinham dado certo. Mayra sentou-se sobre a toalha de xadrez, ao lado do David, e olhou fundo em seus olhos, que brilhavam pelo efeito da luz do lampião e por tudo o que sentia. Ele sorria. O clima era do mais profundo romantismo. David pegou uma rosa vermelha da cesta de arranjos florais e prendeu-a por trás da orelha de Mayra, tornando-a ainda mais linda. Tocou delicadamente seu rosto, trazendo-o até o dele, e beijou-a por longos e intermináveis minutos de pura paixão.

Ali permaneceram por um bom tempo, trocando juras de amor, enquanto desfrutavam do rústico banquete. Em seguida, subiram para o andar de cima do moinho. Ficaram ali juntinhos. Dedos entrelaçados, corpos colados, aconchegados no saco de dormir. Pareciam unidos em uma única alma. O lampião, ao lado, iluminava-os. Pelas três pequenas janelas, contemplavam as estrelas reluzentes no céu límpido. Tinham os rostos suados. A noite era quente, sublime e romântica. Uma noite para jamais ser esquecida. Quando não olhavam as estrelas, fitavam, em silêncio, o teto com toras de madeira a sustentar o telhado. Ouviam a sonoridade de suas respirações ofegantes e trocavam olhares apaixonados. As mãos úmidas de suor não se soltavam. David sorria para ela, que acariciava seu rosto, a admirar seus olhos meigos e traços suaves. Mayra suspirou, tomada por um profundo sentimento de fascinação e amor.

Foi uma noite maravilhosa, David. Jamais vou me esquecer deste momento — disse ela, quebrando o silêncio — Eu te amei como nunca.

Eu também, Mayra. Você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Nunca vou deixar você. Nunca, nunca...

David fitava-a tomado de encantamento. O coração batia acelerado dentro de seu peito nu. Com o corpo colado ao dela, tinha a sensação de estarem unidos pelo mesmo suor. Mais uma vez, beijou carinhosamente o rosto de Mayra e confidenciou baixinho em seu ouvido:

Tenho um sonho que espero realizar em breve, sabia?

Um sonho? E qual é? — perguntou Mayra.

Viver com você para sempre. Sempre, sempre...

É este o seu sonho? — Mayra se emocionara com a resposta.

Sim! Meu sonho é você! E o seu? Qual é o seu sonho?

Mayra sorriu e deitou a cabeça em seu ombro. Olhava para o teto. David acariciava seus fartos cabelos louros.

Também tenho um sonho que espero concretizar um dia. Mas não quero falar sobre isso. Tenho medo.

Medo? Medo de quê?

Tenho medo de falar e dar azar. Se contar, posso afugentar o sonho.

Querida, meu amor por você é maior do que tudo. E nada pode afugentar o que sinto por você.

Jura? Você me ama de verdade?

Sim, eu juro pelo que há de mais sagrado. Eu te amo tanto, que esse amor não cabe nas palavras. Amo muito. Meu amor por você é maior que o universo, maior do que tudo. Ah, Mayra... Como eu te amo!

Eu também, David. Eu te amo muito.

Beijaram-se apaixonadamente por longos segundos.

Mas agora... — disse David, colando sua fronte à dela — Agora, me conte sobre o seu sonho.

Bem... Meu maior sonho é ter um filho, sentir esse filho crescer em meu útero, em meu ventre... — dizia, acariciando a própria barriga — Um filho seu. Vida da nossa vida. O início de uma família — confessou, ainda com um certo temor, mas ao mesmo tempo feliz, por poder compartilhar com ele o seu maior sonho.

Olhou timidamente para David e percebeu, aliviada, que não o assustara com aquela confissão. Ao contrário, viu que seus olhos irradiavam alegria.

Seu sonho é bem melhor que o meu. Com certeza, muito em breve este sonho irá transformar numa linda realidade — disse, pousando a mão sobre a dela, que continuava a acariciar o ventre.

Não acha que o meu sonho de ser mãe é um tanto precipitado?

Não, Mayra. Eu não acho. Afinal, somos adultos, responsáveis e nos amamos.

David sorria feliz, queria que o tempo parasse ali. Não parava de beijar Mayra. Naquele exato momento e lugar, decidiu comprar um anel de diamante para ela e pedi-la em noivado. Não tinha mais dúvidas de que havia encontrado a sua cara-metade. Mayra era a mulher de sua vida. E aquela foi uma noite feita de amor e de estrelas.

sábado, 28 de novembro de 2009

CAPITULO 1 - Coração que não cicatriza, um brinquedo esquecido

Do quintal da casa de sua avó, com uma vassoura na mão, David Forlin observava os pássaros a emigrarem para o sul em busca de calor e sol, voando alto no céu nublado e cinzento. Desejou poder ver o sol a céu aberto ali, irradiando seu esplendor luminoso. Fazia já duas semanas que o astro-rei não ousava aparecer. Nem mesmo as nuvens estavam generosas naquela manhã, recusavam-se a mostrar qualquer pedacinho de azul do céu. Fazia frio, o inverno estava a caminho. David usava uma velha jaqueta de cor de cinza desbotado e um gorro de lã preto, que escondia seu cabelo castanho-dourado e cobria-lhe as orelhas, protegendo-as da friagem. Precisava mantê-las sempre aquecidas. Seus ouvidos eram muito sensíveis, e o frio os maltratava. Não gostava muito daquele clima gelado, foi acostumado ao calor tropical. Era carioca, e a idéia de voltar ao Brasil e alugar um apartamento, onde pudesse ter sua própria vida, tomava conta de sua cabeça. Mas, naquele momento, não podia abandonar a avó, deixando-a confinada à solidão no final de sua vida. Aprendera a amá-la como amava seus próprios pais, e era-lhe muito grato para pensar somente em si. Afinal, ela o acolhera com todo amor, quando ficara órfão aos 14 anos.
Logo depois do acidente automobilístico, que lhe tirou os pais precocemente e mudou toda a sua vida, David mostrava-se insatisfeito por ter de ir morar com a avó. Achava que não se adaptaria à nova vida, que iria se sentir completamente deslocado morando no exterior, ao lado de uma avó com quem pouco convivera até então. Porém, passados alguns meses desde que fora morar naquela pequena cidade, com menos de 200 mil habitantes, começou a se acostumar e até a gostar do local. Solvang ficava no Vale Santa Ynez, e seu estilo de vida parecia remeter os moradores a um nostálgico passado. Bicicletas eram vistas com freqüência pelas ruas como meio de transporte. E o pequeno comércio costumava fechar no final da tarde, por volta das seis horas. A cidade, apesar de pacata, tinha lá seus encantos e um simpático estilo dinamarquês, além os moinhos de vento, localizados no centro, que eram um verdadeiro cartão postal e atraíam muitos turistas. O nome da cidade, Solvang, significava “campo ensolarado”, em dinamarquês. David pensava sobre isso, naquela manhã, e sorria com certa ironia. “Uma cidade, com seu ‘campo ensolarado’, onde o sol não aparece há duas semanas!”, pensava.
Oito anos se passaram desde que David foi morar nesta pacata cidade americana. Nela cresceu e se tornou um homem. Concluiu o segundo grau numa escola local, serviu o Exército por um ano e teve vários empregos, onde permanecia por pouco tempo. Apenas no supermercado conseguiu trabalhar por um período mais longo como atendente de caixa — dois anos e meio. O salário era modesto. Sua vida era modesta. Sempre fora um sujeito modesto e nunca mudava nada em sua rotina. Para David, todos os dias eram sempre iguais e previsíveis.
Suspirou, aguardando esperançoso que o sol voltasse a brilhar. Mas nada de sol. Era como se o grande astro estivesse de luto pelo aumento de tragédias e da violência que assolava o mundo. Parecia até que Deus desligara o sol, por não encontrar razões para fazê-lo brilhar sobre a Terra, vendo que milhares de pessoas morriam brutalmente, vítimas das atrocidades de guerras, roubos e drogas; que a ausência de fé congelava a humanidade e seus corações. Naquele momento, estes eram os melancólicos pensamentos de David, que tratou logo de espantá-los para não ficar deprimido. Começou a varrer, com paciência, todas as folhas caídas, para depois depositá-las na cesta de lixo da calçada. A rua Cerrito era toda asfaltada, perfilada de árvores, cujas folhas coloridas se desprendiam dos galhos e cobriam lentamente as calçadas. Era um lugar aprazível, bem sossegado, perfumado, apesar do ar gélido. Do outro lado, notou a senhora, de baixa estatura e magrinha, sentada na varanda a lhe observar. Ela acenou educadamente, e ele retribuiu-lhe o aceno. Depois voltou ao quintal para pegar a vassoura e seguiu em direção à varanda da casa de madeira, pintada de branco, onde morava. Sobre os degraus havia uma grande cabeça de abóbora, com olhos, nariz e boca, mais conhecida como “Jack, o Lanterna”. Encostou a vassoura no canto da varanda, pegou a cabeça de abóbora e levou-a para dentro de casa. O Dia das Bruxas havia passado já há três dias.
A avó costumava passar a maior parte de seu tempo numa pequena sala, que mais parecia um ateliê, às voltas com os trabalhos artesanais. Estava ela ali agora, em sua poltrona favorita, forrada com uma manta de patchwork. Usava um vestido com estampas florais, meias grossas de lã verde, que iam até os joelhos, e uma blusa de crochê toda colorida, um pouco cafona, detalhe com o qual ela jamais se importava. Seu passatempo favorito era criar bonecos de pano. Eram bonecos que chegavam à perfeição em seu processo de feitura. Ao seu lado havia quatro deles já prontos, quase idênticos, todos do mesmo tamanho. Mediam em torno de quarenta e oito centímetros de altura, contando dos sapatinhos de feltro até o ápice do chapéu cuneiforme. Os rostos, confeccionados em tecido de cor pêssego, eram grandes e ovais; assemelhavam-se ao rosto de um menino faceiro e risonho. Por baixo da borda cilíndrica e multicolorida do chapéu havia cabelos de fios de lã. Os olhos grandes e o nariz, pequeno e empinado, conferiam a eles uma graciosidade cativante, lembrando personagens de desenho animado. Os lábios, pintados em rubro, exibiam um largo sorriso, dando a nítida impressão de estarem sorrindo de verdade. As bochechas tinham coloração rosácea. E as roupas eram também feitas de retalhos. Todos tinham um perfeito acabamento. Era uma confecção muito caprichada.
David apareceu na porta. Contemplou-a. Ela costurava o dorso do último boneco da série, depois de preenchê-lo com mais algodão, de modo a torná-lo bem encorpado e gracioso. O neto sorriu ternamente ao vê-la. Sempre que estava entretida com seus bonecos, ela perdia a noção do tempo e quase nunca percebia sua chegada. Sua concentração era tanta que o mundo ao redor parecia não existir. Era como se estivesse numa espécie de transe. Foi preciso que David pigarreasse intencionalmente para que ela voltasse à realidade.
— David! Que susto me deu! Está querendo matar a sua avó do coração, é? Por um segundo, pensei que fosse um invasor.
— Desculpe, vovó. Vim para lhe dizer que já terminei de varrer todas as folhas do jardim. Agora vou para a cozinha preparar um chocolate quente. Você quer alguma coisa?
— Não, obrigada — respondeu, com um sorriso amável, que mais luminoso ficava quando olhava, orgulhosa, para os bonecos que fazia. A idéia de dá-los às crianças enchia-lhe o coração de amor e paz. Seus pensamentos eram sempre felizes. — Espere um pouco, meu amigo! Só mais um pequeno acabamento e você estará completo.
David arqueou as sobrancelhas ao vê-la conversar com o boneco. Estranhava e se incomodava com aquela mania que sua avó tinha de conversar com bonecos, como se eles tivessem vida própria.
— Você precisa parar com isso, vovó.
— Por quê?
— Eu acho muito esquisito esse negócio de ficar conversando com bonecos feitos de trapos velhos.
— Pssiu! Não fale assim! Meus bonecos podem ficar chateados com você.
— O que é isso, vovó? — retrucou David, já quase levantando o tom de voz — Esses bonecos não passam de pedaços de panos. Ponha isso na cabeça, pelo amor de Deus!
— Pois saiba, querido, que eles podem ouvir o que você diz, podem ver o que você faz e podem sentir o que você sente — disse a velha senhora, fitando o neto com paciência e ternura.
— Isto é impossível, vovó. Você já me falou sobre essa história um monte de vezes. E eu insisto em dizer que tudo isso não passa de pura fantasia, e você deve saber muito bem. Precisa tomar cuidado para não misturar o real com o imaginário.
Ela limitou-se a dar um suspiro. Seu neto não entenderia, não naquele momento.
— Ah, David! Você deixou de ser uma criança, e isso é muito, muito triste.
— Não é minha culpa, vovó. O tempo passa e a maturidade chega. Já tenho 22 anos.
— Eu sei. Mas é uma pena, não é? Deixar de ser criança para se transformar num adulto materialista — respondeu chateada. — Por falar nisso, há muito venho querendo lhe perguntar algo, e sempre me esqueço. Que fim levou aquele boneco que lhe dei quando você ainda era menino. Você brincava tanto com ele. Que fim levou o boneco?
— Ah, o Edwin! — logo lembrou-se do boneco que ganhara dela quando criança. Brincava com ele todos os dias, até completar 12 anos, quando começou a se interessar por outras coisas. A partir de então, o tempo fez com que acabasse por esquecê-lo numa caixa, que nunca mais abriu. — Já nem me lembrava mais dele, vovó. Agora que tocou no assunto, consigo visualizá-lo perfeitamente. Ele está guardado numa caixa. Por quê?
— Você não pode deixar o Edwin guardado numa caixa, David. Se não quer mais o boneco, dê-o para outra criança — disse, ajeitando a pequena camisa de retalhos do boneco que acabara de aprontar, sem dar a perceber o quanto a resposta do neto lhe deixara sentida. — Não me agrada a idéia de saber que o boneco que lhe dei foi esquecido, deixado de lado e tratado como lixo.
— Desculpe, vovó! Desculpe-me. Prometo que vou dá-lo à primeira criança que encontrar. Mudando de assunto, a Dona Stella vai vir hoje à tarde?
— Oh, sim! Ela nunca faltaria ao seu aniversário. Vai trazer um bolo de chocolate, que ela mesma fez.
— Hummm! Esse bolo deve estar bem gostoso. Mal posso esperar. Bem, agora vou mesmo para a cozinha. Se desejar alguma coisa, é só chamar que estarei aqui num piscar de olhos — disse sorrindo.
— Obrigada, querido.
A avó acompanhou-o com os olhos até ele sair da sala e seguir pelo corredor que levava à cozinha. Quando David desapareceu de suas vistas, ela se voltou para o boneco.
— Ele não acredita. Mas sejamos pacientes... Quanto ao novo casaco que fiz para ele, meu bom amigo, já está todo pronto. Tenho certeza que ele vai gostar muito. Hoje vai ser um dia muito especial para meu neto David.
A tarde caiu, o tempo não melhorara muito. Fazia muito frio, névoas embranquecidas envolviam os vales. O vento outonal soprava forte, levando as folhas caídas para longe do quintal. Uma delas voou em direção à janela do quarto de David, que ficava no andar superior, e grudou sobre a vidraça como se fosse um imã. Parecia querer cumprimentar-lhe. Ele usava um agasalho vermelho por cima da calça desbotada. Abriu o guarda-roupa e observou sua imagem refletida no espelho da porta. Examinou seu rosto e a espinha solitária a despontar em sua testa. Espremeu-a sem dó. Depois, ajoelhou-se, puxou a última gaveta e dela retirou uma caixa de sapato. Sentou-se na cama e abriu-a. Dentro da caixa destacava-se um pequeno estojo de veludo preto sobre dezenas de fotos empilhadas. Eram fotos de família. Pegou o estojo, abriu e contemplou o anel reluzente, que nunca fora usado. Era um anel de noivado. Esboçou uma expressão indignada, resmungou qualquer coisa e fechou o pequeno estojo. Pegou uma foto, onde um casal abraçava feliz um garoto risonho de 14 anos. Era ele entre seus pais. A expressão indignada deu lugar a um sorriso, diante da singela imagem. Sentia muita saudade deles. Pegou outra foto. Agora de seu avô. Ele exibia a vara de pesca em uma das mãos e um grande peixe na outra, com o mesmo menino a seu lado. Estavam no píer de Santa Bárbara, num dia ensolarado. Sorriu mais uma vez. Também tinha saudade do avô. Estava entretido com as fotos, quando a avó lhe chamou do andar de baixo.
— David! O café está pronto. Venha, desça!
— Já estou indo, vovó! — respondeu em voz alta para que ela pudesse ouvir, já que a surdez começava a afetá-la , em virtude da idade avançada.
Olhou mais uma vez para uma das fotos e beijou-a com carinho. Guardou a caixa e desceu a escada. Encontrou a avó na cozinha, em companhia de sua antiga amiga, Dona Stella. Ambas estavam sentadas à mesa, esperando por ele. Também lhe aguardava um grande e suculento bolo de chocolate, com recheio de morango e calda de chocolate quente, acompanhado de uma jarra de suco de laranja. Sobre o bolo havia duas velas acesas, em formato de número. As duas senhoras receberam-no com um largo sorriso.
— Feliz aniversário David! — disse a avó. Tinha nas mãos um presente embrulhado em papel dourado, aparentemente volumoso. O aniversariante balançou a cabeça sorrindo.
— Ai, vovó! Não precisa colocar as velas aí. Sinto-me como uma criança tola.
— Deixe de bobagem, querido. É um dia muito especial para você. Venha, faça um pedido!
David inclinou-se sobre a mesa e, depois de pensar num pedido, soprou fortemente as velas. As chamas faiscantes apagaram-se, mas voltaram a se acender, faiscando ainda mais. Ele as soprou. Não deu. Soprou mais uma vez. E as chamas teimavam em ressurgir. Até que resolveu apertar com os dedos os fios das velas. Só então as chamas cessaram. A avó e Dona Stella batiam palmas.
— E aí, querido? Qual foi o seu pedido? — perguntou a avó, curiosa.
— Melhor não dizer, senão dá azar.
— Está certo. Seja lá qual tenha sido seu pedido, tenho certeza que vai ser realizado em breve, muito em breve — disse a boa senhora, entregando-lhe o presente.
— Não precisava ter comprado nada, vovó.
— Eu não comprei, David. Abra-o! — pediu, ansiosa para que ele visse o presente.
Dona Stella olhava curiosa para o embrulho, tentando adivinhar o que poderia ser. David abriu presente e se deparou com um grosso casaco de retalhos, que iria aquecê-lo muito bem nos dias de frio. Fora feito com pedaços de tecidos em formato quadricular, costurados um ao outro de maneira tão precisa e perfeita que os fios da costura eram imperceptíveis. Oito cores compunham o casaco: vermelho, azul, verde, roxo, amarelo, laranja, lilás e marrom. Seu interior fora preenchido com algodão, para produzir um melhor aquecimento. David ficou bastante comovido pelo delicado gesto da avó, pelo trabalho que teve.
— Vovó, não precisava ter feito isso!... Deve ter tido um trabalho enorme.
— Trabalho nenhum! Fiz porque quis, porque me deu prazer. Sua jaqueta está muito velha e feia. Precisa de um casaco novo. Vista-o para ver como fica — pediu, tirando a peça do embrulho.
Dona Stella estava impressionada com os detalhes do casaco. David atendeu ao pedido da avó e vestiu o casaco. Caiu-lhe como uma luva. Sentiu-se aconchegado e aquecido dentro dele, embora estranhasse seu estilo pouco convencional.
— Você se superou, Mary — disse Dona Stella. — É inegável sua habilidade, você se supera em cada coisa que faz. Ah, se eu tivesse esse talento...
— Não se queixe. Você tem talento para pintar quadros, Stella. Portanto, estamos quites — disse bem humorada, não admitia pessoa invejosa. Virou-se e se dirigiu ao neto — E aí? Gostou, querido?
David observava sua imagem refletida na vidraça da janela da cozinha. Parecia um personagem de história em quadrinhos, que acabara de saltar do reino da fantasia para o mundo real. Real e violento. Sentia-se estranho. Na verdade, não conseguia se imaginar usando aquele tipo de casaco, todo diferente e excessivamente colorido.
— Quero que saiba, meu querido, que este casaco vai lhe proteger, não só da friagem, mas de todos os males que possam vir a lhe prejudicar. Ao fazê-lo, coloquei nele os meus melhores sentimentos. E acredito que a força desta energia vai lhe deixar muito bem protegido.
David, tentando conter a risada por achar a idéia da avó um tanto estapafúrdia, comentou:
— Ah, vovó...! Você não pára mesmo de inventar fantasias! Por favor, não exagere, está bem? — disse, sentindo-se pouco incomodado com aquelas crenças surreais dela.
Há oito anos convivia com ela, e a adorava. Mas não conseguia aceitar muito bem aquela sua mania de viver e interagir no mundo da fantasia. Era demais.Chegava ao ponto de irritá-lo.
— Que pena... Acho que você não gostou — lamentou a avó, frustrada com a reação do neto.
— Não é isso, vovó. Eu gostei. É bacana mesmo! Muito obrigado! — mentiu. Não queria desapontá-la.
A boa senhora sorriu. Abraçou o neto e beijou-lhe a fronte com carinho. Emocionado com seu gesto, David tentava conter as lágrimas, que escapavam involuntariamente de seus olhos. Dona Stella também veio abraçá-lo.
— Feliz aniversário, David! Tenha muita saúde e felicidade!
David agradeceu as sinceras manifestações de afeto e depois tirou o casaco.
— Por que está tirando o casaco? — atalhou a avó.
— Não quero sujá-lo — mentiu mais uma vez. — Mas vou usá-lo quando sair.
A avó, naturalmente, percebeu que o neto não gostara muito do casaco. Mas, apesar da tristeza em seus olhos, esforçou-se para sorrir e fingir que não estava nem um pouco desapontada.
— Está bem, querido. Agora vamos comer. Estou com fome! — exclamou, acomodando-se na cadeira. Dona Stella pegou uma faca e cortou o bolo.
David pendurou o casaco no espaldar da cadeira e sentou-se entre as duas senhoras. Dona Stella serviu-lhe uma fatia de bolo, ele agradeceu e elogiou o sabor.
— É uma pena que sua namorada e aquele seu amigo não estejam aqui para comemorar esta data tão importante para você, e para nós também — dizia Dona Stella, tentando puxar conversa. — Não sei por que fizeram aquilo. São pessoas tão agradáveis. Vocês três sempre se deram tão bem...
David olhou para ela contrariado. A expressão em seu rosto era de irritação. Parecia profundamente atingido com aquele inoportuno comentário.
— Por que tinha que falar sobre eles agora, Dona Stella? — disse, alterando a voz, de maneira ríspida e grosseira. Não se sentia nada confortável ao lembrá-los. — Por que a senhora insiste em cutucar minha ferida?
Dona Stella olhava para ele perplexa. Nunca na vida havia recebido uma bronca daquelas. Olhou para a amiga, que lhe dirigiu uma expressão contrafeita, como se dissesse em silêncio: “Por que, em nome de Deus, foi tocar neste assunto espinhoso, sua desmiolada?” Mas era tarde demais. David explodiu, contrariado.
— Por que diabos eu ia querer que eles estivessem aqui no meu aniversário, depois de terem me traído de maneira tão sórdida? Não, Dona Stella, eles não merecem a minha consideração, de maneira alguma — bateu com o punho fechado sobre a mesa, fazendo os pratos e o bolo saltarem sobre a mesa. — Maldição!
— Por favor, me desculpe, David. Achei que vocês já tivessem superado essa história — disse Dona Stella, arrependida. Tinha vontade de chorar, mas se segurou para não complicar ainda mais a situação. Não queria fazer papel de boba na frente deles. Podia ver nos olhos de David, o quanto ele ficara magoado com aquele assunto.
— Não, não superei ainda. Já se passaram dois meses e eu ainda sinto uma enorme raiva ao lembrar. Eles me traíram. Apunhalaram-me pelas costas.
— David, David! — interpelou a avó, tentando acalmá-lo — Fique frio. Se você continuar com esse rancor, com esses pensamentos revoltosos, sua vida não vai evoluir. Evite esse tipo de sentimento. Sabe que não vale a pena agir dessa maneira.
— Até hoje não consigo acreditar! — desabafou, magoado — Não entendo por que fizeram isso comigo. Como puderam?
Ela pousou sua mão sobre a de David, abriu um sorriso e começou a fitá-lo, com os olhos cheios de ternura.
— David, meu querido, você precisa deixar o passado ir embora, pensar nas coisas boas que estão por vir. Deve seguir, com plena confiança, a trajetória de sua vida, conforme ela se apresenta. Só desta maneira, conseguirá evoluir. Não deve deixar que o passado perturbe sua vida, entendeu? Se ficar preso a ele, aos momentos desagradáveis que lhe causaram desgostos, atrairá para si sentimentos ainda mais sombrios. Não vale a pena, meu querido. Deixe o passado lá para trás, que é o lugar dele. Chame pela vida. Você merece tudo de bom, merece ser feliz. E é o que eu mais quero. Não permita que lembranças nefastas estraguem o dia de hoje. Este é um novo dia. É hora de começar a semear bons frutos para colher no futuro. Se algo não deu certo num determinado momento, sempre haverá um amanhã, onde é possível melhorar e ser feliz.
Os olhos de David umedeceram. Comovera-se com o sábio conselho da avó. Suas sublimes palavras fizeram com que se sentisse melhor.
— Vou me lembrar sempre dessas palavras. A senhora tem toda razão. Obrigado, vovó!
— Não precisa agradecer. Você é meu neto amado e eu estarei sempre disposta a ajudá-lo nas horas difíceis — levantou-se e deu um carinhoso beijo em seu rosto.
— Agora vamos esquecer tudo, de uma vez por todas — disse por fim, voltando a se sentar. — E vamos acabar de comer a torta! Está mesmo deliciosa!
David abriu um sorriso e levou, com vontade, um pedaço de torta à boca. Uma lágrima ameaçou escapar, mas conteve a emoção e voltou a sorrir. Dona Stella tratou de mudar de assunto, não queria mais correr o risco de ser inconveniente. Começou a falar de amenidades, de novelas, da vizinhança, de flores, roupas, culinária, temas que somente senhoras como ela entendem com profundidade. Alheio, David não prestava muita atenção à conversa. Tinha a mente voltada para o passado. Na verdade, ainda pensava nela. Ainda a amava.
Depois de comer dois pedaços do bolo de chocolate, David acomodou-se na sala para assistir a um filme na tevê. A avó, sentada em sua poltrona, confeccionava um chapéu em forma de cone para seu último boneco. Ao seu lado estava Dona Stella que, por sua vez, tricotava um agasalho para o filho. Os pensamentos felizes de Dona Mary foram interrompidos por ruídos de tiroteio e gritos de pavor que vinham da televisão. Era um filme forte e violento. Filme de guerra. A cena mostrava um grupo de atiradores que exterminava várias pessoas inocentes. Guerra. Carnificina. Horror. A avó de David sentia-se horrorizada com tanta violência.
— David, mude de canal. Não gosto desse filme! — ordenou a avó e, em seguida, se dirigiu a Dona Stella que, entretida em seu tricô, parecia não se incomodar com os gritos e tiros que vinham da tevê — Está vendo só? Você acha divertido ver filmes violentos?
Dona Stella, muito absorta em seus pensamentos, não a ouviu. Dona Mary então a chamou em voz alta pelo nome, e ela, por fim, levantou os olhos sobressaltada.
— O que foi? — exclamou, com uma expressão confusa — Me chamou?
— Sim! Perguntei se você acha que é bom ver esse tipo de filme? — apontou para a televisão.
Dona Stella olhou para a tela da tevê e viu a cena de dois homens se agredindo. Expressou horror e indignação.
— Que horror! Não entendo por que ainda insistem em produzir esses filmes tão violentos, se todo mundo sabe que eles influenciam negativamente a nossa sociedade! — protestou Dona Stella, e prosseguiu com seu discurso — Pior é que os adolescentes adoram imitar os personagens dos filmes. Soube de um caso em que um desses jovens roubou o carro do pai para disputar corrida com outro rapaz e acabou caindo no abismo, exatamente como aconteceu naquele filme. Aquele do ator bonito que morreu num acidente trágico num carro pequeno... Como era mesmo o nome dele?
— James Dean — respondeu David prontamente.
— Esse mesmo! Eu não entendo por que produzem esse tipo de filme!
— Para ganhar muito dinheiro, é lógico! — exclamou o rapaz, sem olhar para ela.
— Violência, dinheiro... Ah, esses produtores! Os valores de nossa sociedade estão ficando cada vez mais decadentes — disse a avó, balançando a cabeça.
Quando o filme mostrou o soldado herói enterrando um facão no corpo do inimigo, a avó ficou horrorizada e pediu mais uma vez para o neto mudar de canal.
— É só um filme, vovó! Não é de verdade...
— Eu sei que é só um filme, David! — respondeu, um tanto alterada pela sucessão de imagens fortes e violentas — Mas isso não faz bem para a sua cabeça. Pode causar pesadelos. Não gosto disso. Essa gritaria horrível me deixa nervosa. Mude o canal, por favor! — pede novamente.
— Está bem, vovó! — disse David, apertando a tecla do controle remoto e mudando de canal.
O novo canal transmitia um programa musical tipicamente country. Um cantor, aparentando origem mexicana, com chapéu de caubói, tocava seu violão e entoava uma bela e melancólica canção. A letra falava de um homem que amava muito uma mulher. Enquanto ouvia a música, David levantou-se e deu um suspiro. Aproximou-se da janela e olhou a paisagem do lado de fora. A chuva continuava. Pensava ainda na ex-namorada. Sentia saudade de ficar a seu lado, assistindo filme, comendo pipocas e namorando muito, como costumavam fazer nas tardes chuvosas. Com ar desanimado, deu um bocejo e se espreguiçou. Estava sonolento. A avó percebeu seu tédio.
— Por que não lê um bom livro, David? Daqueles com coletâneas de pensamentos ou mensagens espirituais? Faz bem para a mente e para a alma.
— Não tenho vontade de ler. Vou para o meu quarto cochilar um pouco — respondeu, se afastando da janela e tomando a direção do quarto.
— Tudo bem, querido. Tire um bom cochilo então — disse a avó.
David lhe respondeu com um aceno, sem nada dizer. Saiu da sala, subiu a escada e foi direto para o quarto. Atirou-se na cama, deitou e fechou os olhos. A imagem de Mayra não saía de seus pensamentos.