quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 3 - Um doloroso presságio

— David, acorde! — chamava a avó, sacudindo o neto pelo braço — Você vai chegar atrasado!

Ele abriu os olhos, espreguiçou-se e deu um bocejo. Havia muito tempo que não dormia tão bem. Sentia-se revigorado. Reparou que a avó olhava para ele de um jeito diferente e que a claridade invadira o quarto. O dia amanhecera.

— Esqueceu que hoje é segunda-feira? Vai chegar atrasado ao trabalho.

— Não, não esqueci. O relógio ainda não tocou o alarme.

— Já são oito e cinqüenta e cinco.

— O quê?!! — exclamou surpreso e pulou da cama.

Olhou para o relógio e notou que ele marcava quinze horas e cinqüenta e cinco minutos. Justo naquela manhã, que não podia se atrasar para o trabalho, o relógio resolveu dar defeito. Custava a crer que havia dormido mais do que o habitual. Todas as manhãs costumava acordar às seis e meia. Mas, excepcionalmente, nessa segunda-feira, dormira demais. Quando viu que o relógio estava parado, tomou um susto. Deveria estar no trabalho dentro de cinco minutos. Na verdade, não seria a primeira vez a chegar atrasado. Mas, conhecendo bem o chefe que tinha, poderia esperar por uma bela bronca, coisa que não suportava.

— Melhor apressar-se, senão seu chefe vai lhe torturar com mil sermões — advertiu a avó e voltou para a cozinha.

— Maldição! — exclamou irritado. Os minutos passavam céleres e ele não podia ficar ali parado. Todo atrapalhado, vestiu rapidamente a calça, a camisa e a velha jaqueta. Desceu atabalhoadamente as escadas e deparou-se com a avó, que já vinha em sua direção, trazendo-lhe uma xícara de café.

— Tome o café, querido. Por que não usa o casaco que lhe dei ontem?

— Não tenho tempo, vovó. Estou com pressa — respondeu-lhe já na porta da varanda.

Ela sabia. David não havia gostado do casaco. Sentiu uma ponta de tristeza. “Tanto trabalho em vão...”

— Tudo bem. Tome pelo menos um gole, senão vai sentir fome no trabalho.

— Não se preocupe, vovó — disse, colocando o gorro, antes de sair. — Eu como alguma coisa por lá. Tchau!

— Leve a capa de chuva, querido. Vai chover mais tarde.

— Não precisa. Se chover, fico no supermercado até estiar. Cuide-se, vovó!

— Vá com Deus, meu querido.

David pegou a bicicleta, que ficava nos fundos da casa, destravou a tranca, e começou a pedalar. Antes que continuasse seu trajeto, ouviu a avó chamá-lo.

— O que é, vovó?

— Gostaria comer uma torta de frango hoje à noite? — perguntou.

— Sim, pode ser — respondeu, com um leve sorriso, e continuou a pedalar, até dobrar a esquina e sumir das vistas da avó.

Dona Mary sabia o quanto David adorava aquela torta. Conhecia-o bem, desde criança, desde quando ele só vinha em visita, uma vez por ano. Já nessa época, seu prato favorito era a torta caseira feita por ela. Quando aparecia esfomeado e sentia o cheiro da torta vindo do forno, ficava radiante. Era um verdadeiro devorador de tortas, doces ou salgadas. Qualquer uma que aparecesse à sua frente era sinônimo de tentação. E a avó fazia questão de não esquecer disso.

Muito mais acelerado que a bicicleta, o coração de David batia a mil por hora. Pedalava com toda a força para chegar ao supermercado. Em dez minutos já estava no estacionamento. Acorrentava a bicicleta num lugar seguro, quando, para seu azar, surgiu o patrão com cara de poucos amigos.

— David! Você sabe que horas são? — perguntou apontando para o seu relógio — Está atrasado! Tem alguma justificativa para este atraso?

— Desculpe, senhor — disse David, descendo da bicicleta, ofegante e suado. — Meu despertador não tocou, e só descobri que estava danificado quando acordei. Não queria chegar atrasado, mas não tive...

— Chega de conversa fiada, rapaz! — interrompeu o patrão, com rispidez — Eu já avisei várias vezes que não tolero atrasos. Poderia despedi-lo agora mesmo, não fosse por seu avô, que me salvou de boa, no passado. É só pela consideração que tenho a ele que venho aturando seus constantes atrasos. Espero que isso não repita mais.

— Eu sei, senhor. Eu sei! Prometo que não acontecerá novamente. Juro pela alma de meu avô.

— É bom, meu rapaz! Agora, vá trabalhar. Cada minuto é precioso! E, se desperdiçar as horas de trabalho, descontarei de seu salário, entendeu? Tempo é dinheiro, não se esqueça! — esbravejava o patrão, com o dedo em riste no nariz de David.

“Vai descontando, senhor, vai descontando, que eu ainda perco a paciência e lhe dou o troco!”, resmungava David, irritado, enquanto assentia com a cabeça e um sorriso amarelo. “Ah, se ele soubesse que sou campeão de caratê... Se soubesse que eu seria capaz de quebrar seus dedos, de unhas bem tratadas, se ele ousasse tocar no meu nariz...” Mas felizmente essa idéia não ultrapassou o terreno da imaginação. A voz da razão falou mais alto do que o temperamento impulsivo. Precisava muito do emprego. Se o perdesse, teria dificuldades para arranjar outro. Já era seu terceiro emprego.

O primeiro foi numa delicatessen, que comercializava carnes e especialidades escandinavas. Não ficou mais que três semanas. Pediu demissão, depois de desmaiar ao presenciar o terrível acidente ocorrido com um funcionário que manuseava a máquina de cortar carnes. O sujeito perdera três dedos. Era sangue espalhado por todos os lados. A cena lhe chocara tanto, que ele nunca mais conseguiu apagar aquele dia horrendo de sua cabeça. Após pedir demissão e se recuperar do choque, saiu em busca de outro trabalho. Viu no jornal um anúncio oferecendo vaga para ajudante de veterinário. Deu sorte e conseguiu ser admitido. O salário era baixo, mas era melhor do que nada. Pior do que o salário era o tipo de serviço que, para ele, era terrível. Tinha que lavar todos os cachorros e presenciar as torturantes operações do veterinário nos animais. Uma vez, teve de assisti-lo numa cirurgia feita na barriga de um cachorro para a retirada de um parafuso alojado no estômago do bicho, que o engolira inadvertidamente. Toda vez que David via sangue, desmaiava na hora. Era seu ponto fraco. Obviamente, não suportou essa experiência e, mais uma vez, pediu demissão. Não foi tão fácil com a terceira tentativa. Levou um mês para encontrar algo condizente com o seu perfil. Mas, graças a uma feliz idéia da avó, conseguiu uma colocação razoável. Ela lembrara que o marido, no passado, viveu uma situação com aquele que viria a ser seu patrão, no supermercado, e que este homem lhe ficara devendo um grande favor. O avô de David salvara-o de um desafortunado acidente e de uma boa confusão há muitos anos atrás. Por uma questão de gratidão, o sujeito jamais poderia se recusar a ajudar o neto daquele que um dia lhe salvara. A história era no mínimo curiosa.

Em uma tarde do verão de 1965, o avô de David caminhava pela rua, após comprar seu jornal, quando se deparou com um adolescente que escalava uma árvore alta. O rapaz deu um passo em falso e sofreu uma queda brusca. Quebrou as duas pernas. Imediatamente, o prestativo senhor correu em seu auxílio e levou-o para o hospital. Depois de tratadas as fraturas, o bom homem perguntou ao jovem o que ele fazia no alto daquela árvore. Ele respondeu, meio envergonhando, que espiava uma garota que se despia no quarto, com a janela aberta. Depois de confessar sua travessura, ficou apavorado com idéia de que aquele senhor pudesse contar tudo a seu pai, dono de um modesto mercadinho na vizinhança, que futuramente viria a ser um grande e famoso supermercado. O jovem pediu-lhe para manter em segredo tudo o que ele acabara de confessar. O avô de David, homem de coração generoso, garantiu-lhe que não contaria nada a seu pai. O adolescente ficou-lhe muito agradecido. Em retribuição, prometeu que faria qualquer coisa para ajudá-lo, caso precisasse, em alguma situação futura.

E o futuro chegou. O que a avó de David fez foi apenas aproveitar a oportunidade para que uma promessa do passado, feita a seu marido, fosse cumprida. Anos depois, resolveu encontrar esse antigo adolescente, agora já homem feito, em seu escritório, no supermercado. Acreditava que aquela seria uma boa hora para ele retribuir a cumplicidade de seu marido. Como forma de agradecimento, ele poderia conseguir um emprego decente para seu neto. E assim foi feito. Ela passou horas conversando com o homem. E, já final da tarde, ao retornar para casa, anunciou a boa notícia ao neto, cheia de felicidade.

— Querido, consegui um emprego para você! Amanhã de manhã, você começa a trabalhar no supermercado, como atendente de caixa.

A sorte parecia sorrir para David. Estava tão feliz que convidou a avó para comemorar aquele dia promissor no restaurante mais freqüentado da cidade. Ela merecia tudo de bom. Não teria ele arranjado emprego melhor sem a sua hábil intervenção.

Colocou a tranca anti-roubo na bicicleta e entrou no supermercado pela porta dos fundos, destinada somente aos funcionários. Vestiu o guarda-pó com o logotipo do supermercado e foi para o seu posto. Das doze caixas existentes, oito estavam funcionando, sendo que em cinco delas as filas eram mais longas. Alguns clientes reclamavam e demonstravam impaciência. David assumiu seu posto em uma das caixas registradoras e ligou a máquina. Os clientes que estavam por último nas outras filas vieram para a sua caixa. “Hoje vai ser um dia cheio!” — pensou. E começou a trabalhar. Calculava, com rapidez, as compras de cada um, depositava o dinheiro e os cheques recebidos no compartimento da caixa registradora, e sorria mecanicamente aos clientes, agradecendo-lhes a preferência e recomendando que voltassem sempre. Sua rotina prosseguia sem maiores surpresas naquele dia, até que, no momento em que atendia um simpático casal de velhinhos, um estampido súbito e ensurdecedor ecoou dentro do supermercado. As pessoas no recinto paralisaram com o susto. David sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. Temia que o tiro tivesse sido disparado pelos mesmos assaltantes que invadiram o supermercado no mês anterior. Na ocasião, vivenciara o maior clima de terror e tensão de sua vida. Naquele instante, pensou que, como um dos assaltantes havia sido morto, o bando poderia ter voltado para se vingar. Mas felizmente não era nada tão trágico. Ao olhar para lado, David viu apenas um rapaz muito envergonhado, desculpando-se por ter derrubado uma lata de feijão. Suspirou aliviado por não estar diante de outra ameaça. Estava tudo bem. Não queria, de forma alguma, passar novamente por horas de terror com aquelas.

O tempo passava, mas não tão depressa como gostaria David, que não parava de olhar para o relógio sobre a porta de saída, esperando que seu turno terminasse logo. Queria voltar para casa. Faltavam ainda cinco horas. Virou a cabeça e notou que uma senhora lhe sorria. Retribuiu-lhe o sorriso. Do outro lado, uma mulher segurava um pacote de açúcar e ajustava os óculos sobre o nariz para conferir o preço. Mais adiante, uma criança, diante das prateleiras que armazenavam caixas de bombons e barras de chocolate, chamava pela mãe, em voz alta e com olhos gulosos, pedindo que lhe comprasse o tão desejado produto: chocolate branco. A mãe balançou a cabeça negativamente, frustrando-lhe o desejo. Foi o bastante para a criança começar a berrar, chamando a atenção de todos. O escândalo foi tanto que a mãe, já corada de vergonha diante das pessoas e muito a contragosto, pegou uma barra de chocolate branco e atirou-a com violência dentro do carrinho, com visível expressão de impaciência.

— Está contente agora, seu malcriado? — perguntou a mãe, muito irritada com o filho voluntarioso.

O menino nada respondeu. Limitou-se a sorrir de orelha a orelha. David divertia-se com aquela cena. Em seguida, bocejou e esticou os braços, espreguiçando-se. Sentia uma leve dor de cabeça. Estava com fome. Não teve tempo sequer para tomar um café por causa da longa fila de clientes. À medida que os ponteiros do relógio avançavam, aproximando-se da hora de seu almoço, a barriga roncava mais alto. Envergonhado, ele disfarçava tossindo para que as pessoas não escutassem aqueles inconvenientes ruídos. Faminto, imaginava-se dentro da Paula’s Pancake House, onde sua namorada trabalhava como garçonete, fartando-se daquelas panquecas que, só de pensar, deixavam-no com água na boca. Era um lugar aconchegante, onde as pessoas podiam se deliciar com os mais variados e saborosos tipos de panquecas. David gostava de combiná-las com sorvetes e calda de chocolate quente. O lugar fazia parte de seu dia-a-dia, freqüentava-o assiduamente até o dia fatal da briga com a namorada. Desde então, não apareceu mais por lá, por mais vontade que tivesse de devorar as irresistíveis panquecas.

A fila do supermercado ia andando e trazendo outros clientes, a quem ele atendia com educação. Quando deu meio-dia, David saiu para fazer um lanche e, após quarenta minutos de descanso, voltou ao seu posto. Meia hora depois, levantou a cabeça e avistou o chefe, vindo em sua direção, com cara muito séria. Começou a tremer, pensando que havia feito algo de errado. Mas não era por causa de erro algum. Antes fosse. O homem parou à sua frente. Não havia alteração ou rispidez no seu tom de voz ao interpelá-lo. Ao contrário, tinha os olhos marejados. Era a primeira vez que David o via daquele jeito. O chefe respirou fundo e, com a voz embargada, falou:

— David, recebi uma ligação de sua vizinha. É sobre sua avó. Aconteceu uma tragédia.

O coração do rapaz bateu aflito. Tinha maus pressentimentos.

— A vovó? Ela está bem? O que aconteceu com ela?

— Dois marginais invadiram a casa e atiraram nela.

Algumas pessoas na fila da caixa, horrorizadas ao ouvirem a conversa, reagiram com gritos de susto e palavras de indignação. David começou a chorar. Sentiu o mundo parar. O relógio, as vozes, a música de fundo no supermercado, os passos das pessoas, o ruído das caixas registradoras, tudo silenciara aos seus sentidos. O tempo pareceu sofrer uma síncope. Um silêncio profundo pairou sobre ele, como se fosse o lamento de um doloroso presságio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

CAPÍTULO 2 - Uma noite de amor e de estrelas

– Ah, David! Posso ver agora? Estou morrendo de curiosidade — dizia Mayra, ansiosa e abrindo seu lindo sorriso.

David cobria seus olhos com as mãos e deliciava-se com o delicioso perfume que exalava dos longos cabelos louros, ligeiramente ondulados, da namorada. A lua cheia clareava a noite, e uma suave brisa de verão soprava agradavelmente. David queria fazer uma surpresa a Mayra. Sem tirar as mãos de seus olhos, conduzia-a para o local pretendido. Andaram mais uns poucos metros e, finalmente, ele liberou sua visão. Mayra estava completamente fascinada com o que via à sua frente. A uns vinte metros, podia-se avistar o moinho de vento, tipicamente dinamarquês, banhado pela luz do luar, sob o céu estrelado. Ao redor, centenas de vaga-lumes pulsavam luzes verde-claras, volitando em diferentes direções. Era uma visão deslumbrante, quase mágica. Mayra, emocionada, abriu seu sorriso branco, diáfano como a luz do luar.

É lindo, David! Como encontrou esse lugar? — perguntou, com as mãos no peito, como a conter sua emoção.

Por puro acaso. Uma vez, passeava de carro com meu pai e meu avô. Eles me levavam para conhecer as plantações de uvas no vale. No caminho, meu pai parou neste lugar. E eu me encantei com ele.

O moinho parece estar abandonado... — dizia Mayra, reparando nas paredes desbotadas e em algumas vidraças quebradas.

Sim, está mesmo. Meu sonho era comprá-lo. Mas, você sabe, não tenho dinheiro para tanto, neste momento.

O quê? Você quer comprar o moinho?

Sim, era o sonho de meu pai. Ele queria comprá-lo quando planejávamos nos mudar para cá. Só que, infelizmente, aconteceu toda aquela tragédia, que você já sabe, e o sonho se foi com ele. Mas eu vou fazer de tudo para realizar esse desejo de meu pai. Acha a idéia ruim?

Não, David. Eu acho isso tão... tão... lindo e comovente. Quanto mais lhe conheço, mais descubro em você coisas que me encantam. Você é o homem mais sensível e romântico que já conheci em toda a minha vida. E esta é uma noite perfeita, David. Jamais vou esquecê-la.

Mas você ainda não viu o resto. Venha comigo! — disse David sorrindo. Ainda tinha mais uma surpresa. Pegou a mão de Mayra e seguiram em direção ao moinho.

David, vai deixar o carro do Mike aí? E se alguém roubar?

Não se preocupe, Mayra. Há anos que quase ninguém passa por aqui.

Como sabe?

Porque sei.

Chegando à porta do moinho, David tirou uma antiga chave do bolso e enfiou-a no cadeado da porta, que se abriu com facilidade.

Como arranjou essa chave?

Através de um conhecido meu, que é o dono deste lugar, e está querendo vendê-lo.

Ah... Por isso você falou em comprá-lo.

Sim, por isso mesmo. Mas por enquanto não dá.

Ele não se incomoda de entrarmos aqui?

Assim que a porta se abriu, Mayra se deparou com os aposentos em completa escuridão. Não enxergava nada além das janelas.

Fique aqui e espere — disse David, adentrado a escuridão do recinto.

Não, David! Não quero ficar sozinha. Tenho medo do escuro! — suplicou.

Mas David já tinha mergulhado no breu. Ela podia ouvi-lo por perto, como se estivesse manipulando alguns objetos. E logo a escuridão se transformou numa agradável penumbra. David acendera um lampião a gás, para clarear o lugar. Surpresa, Mayra viu quando ele se ajoelhou perto da antiga máquina de moer e colocou o lampião aceso sobre o chão, que estava forrado com uma grande toalha de xadrez. Sobre ela havia uma cesta com arranjos florais, um balde de gelo com uma garrafa de vinho, duas taças de cristal e uma cesta com croissants, biscoitos, pães recheados com lingüiça e queijos envelhecidos. Os olhos de Mayra brilhavam, seu coração palpitava.

Oh, David! — exclamou, tomada pela emoção. Quase não conseguia falar.

A noite era de total encantamento para ela. David sentou-se no chão, perto do balde de gelo e acenou, chamando-a para dentro. Ela entrou, meio incrédula, olhando para cada canto daquele lugar. Logo vislumbrou a escada que levava ao aposento do andar superior. David sorria de vê-la tão fascinada. Passara duas semanas planejando este momento tão especial. Queria agradá-la, surpreendê-la. E, ao que tudo indicava, seus planos tinham dado certo. Mayra sentou-se sobre a toalha de xadrez, ao lado do David, e olhou fundo em seus olhos, que brilhavam pelo efeito da luz do lampião e por tudo o que sentia. Ele sorria. O clima era do mais profundo romantismo. David pegou uma rosa vermelha da cesta de arranjos florais e prendeu-a por trás da orelha de Mayra, tornando-a ainda mais linda. Tocou delicadamente seu rosto, trazendo-o até o dele, e beijou-a por longos e intermináveis minutos de pura paixão.

Ali permaneceram por um bom tempo, trocando juras de amor, enquanto desfrutavam do rústico banquete. Em seguida, subiram para o andar de cima do moinho. Ficaram ali juntinhos. Dedos entrelaçados, corpos colados, aconchegados no saco de dormir. Pareciam unidos em uma única alma. O lampião, ao lado, iluminava-os. Pelas três pequenas janelas, contemplavam as estrelas reluzentes no céu límpido. Tinham os rostos suados. A noite era quente, sublime e romântica. Uma noite para jamais ser esquecida. Quando não olhavam as estrelas, fitavam, em silêncio, o teto com toras de madeira a sustentar o telhado. Ouviam a sonoridade de suas respirações ofegantes e trocavam olhares apaixonados. As mãos úmidas de suor não se soltavam. David sorria para ela, que acariciava seu rosto, a admirar seus olhos meigos e traços suaves. Mayra suspirou, tomada por um profundo sentimento de fascinação e amor.

Foi uma noite maravilhosa, David. Jamais vou me esquecer deste momento — disse ela, quebrando o silêncio — Eu te amei como nunca.

Eu também, Mayra. Você é a melhor coisa que aconteceu em minha vida. Nunca vou deixar você. Nunca, nunca...

David fitava-a tomado de encantamento. O coração batia acelerado dentro de seu peito nu. Com o corpo colado ao dela, tinha a sensação de estarem unidos pelo mesmo suor. Mais uma vez, beijou carinhosamente o rosto de Mayra e confidenciou baixinho em seu ouvido:

Tenho um sonho que espero realizar em breve, sabia?

Um sonho? E qual é? — perguntou Mayra.

Viver com você para sempre. Sempre, sempre...

É este o seu sonho? — Mayra se emocionara com a resposta.

Sim! Meu sonho é você! E o seu? Qual é o seu sonho?

Mayra sorriu e deitou a cabeça em seu ombro. Olhava para o teto. David acariciava seus fartos cabelos louros.

Também tenho um sonho que espero concretizar um dia. Mas não quero falar sobre isso. Tenho medo.

Medo? Medo de quê?

Tenho medo de falar e dar azar. Se contar, posso afugentar o sonho.

Querida, meu amor por você é maior do que tudo. E nada pode afugentar o que sinto por você.

Jura? Você me ama de verdade?

Sim, eu juro pelo que há de mais sagrado. Eu te amo tanto, que esse amor não cabe nas palavras. Amo muito. Meu amor por você é maior que o universo, maior do que tudo. Ah, Mayra... Como eu te amo!

Eu também, David. Eu te amo muito.

Beijaram-se apaixonadamente por longos segundos.

Mas agora... — disse David, colando sua fronte à dela — Agora, me conte sobre o seu sonho.

Bem... Meu maior sonho é ter um filho, sentir esse filho crescer em meu útero, em meu ventre... — dizia, acariciando a própria barriga — Um filho seu. Vida da nossa vida. O início de uma família — confessou, ainda com um certo temor, mas ao mesmo tempo feliz, por poder compartilhar com ele o seu maior sonho.

Olhou timidamente para David e percebeu, aliviada, que não o assustara com aquela confissão. Ao contrário, viu que seus olhos irradiavam alegria.

Seu sonho é bem melhor que o meu. Com certeza, muito em breve este sonho irá transformar numa linda realidade — disse, pousando a mão sobre a dela, que continuava a acariciar o ventre.

Não acha que o meu sonho de ser mãe é um tanto precipitado?

Não, Mayra. Eu não acho. Afinal, somos adultos, responsáveis e nos amamos.

David sorria feliz, queria que o tempo parasse ali. Não parava de beijar Mayra. Naquele exato momento e lugar, decidiu comprar um anel de diamante para ela e pedi-la em noivado. Não tinha mais dúvidas de que havia encontrado a sua cara-metade. Mayra era a mulher de sua vida. E aquela foi uma noite feita de amor e de estrelas.